Com esta chave, a Oração Eucarística IV desenha o movimento da revelação, expondo a dinâmica dos mistérios cristãos. Ainda que longa, valerá a pena recordá-la na íntegra.

«Nós Vos glorificamos, Pai santo, porque sois grande e tudo criastes com sabedoria e amor. Formastes o homem à vossa imagem e lhe confiastes o universo, para que servindo-Vos unicamente a Vós, seu Criador, exercesse domínio sobre todas as criaturas. E quando, por desobediência, perdeu a vossa ami­zade, não o abandonastes ao poder da morte, mas, na vossa misericórdia, a todos socorrestes, para que todos aqueles que Vos procuram Vos encontrem. Repetidas vezes fizestes aliança com os homens e pelos profetas os formastes na esperança da salvação. De tal modo amastes o mundo, Pai santo, que chegada a plenitude dos tempos, nos enviastes como Salvador o vosso Filho Unigénito: feito homem pelo poder do Espírito Santo e nascido da Virgem Maria, viveu a nossa condição humana, em tudo igual a nós, exceto no pecado; anunciou a salvação aos pobres, a libertação aos oprimidos, a alegria aos que sofrem. Para cumprir o vosso plano salvador, voluntariamente Se entregou à morte, e com a sua ressurreição destruiu a morte e restaurou a vida. E a fim de vivermos, não já para nós próprios mas para Ele, que por nós morreu e ressuscitou, de Vós, Pai misericordioso, enviou aos que n’Ele creem o Espírito Santo, como primícias dos seus dons, para continuar a sua obra no mundo e consumar toda a santificação».

É o-amor-que-Deus-Trindade-é que tudo traz à vida, que tudo restitui à vida e que tudo mantém em vida, até que, por Jesus e no Espírito, chegue a ser tudo em todos. Assim a criação. «YHWH-Deus modelou o homem do pó do solo, e soprou nas suas narinas um alento de vida, e o homem tornou-se um ser vivo» (Gn 2,7). «Descrição de sonho», regista A. Couto. «Eis o homem. Ser homem assim é nascer, viver e morrer “à boca de Deus” (Nm 33,38; Dt 34,5), sempre como um beijo de Deus, incrível intimidade com Deus». Eis a «força constitutiva do primeiro dom de Deus» sem a qual «não nos resta senão a natureza com os seus determinismos, a violência, o fatalismo, a idolatria, que é a recondução da existência humana para dentro do princípio natural, enfim, a vitalidade da morte»14. O dom que exprime a verdade do amor é a gramática da criação. Exprime a alegria de Deus por gerar o diferente de si e de estar entre os homens. A criação não é, por isso, emanação, exuberância de um ser narcisista que age para se olhar ao espelho. Não é produção funcional de umas tantas coisas que devem servir para alguma coisa. O poder criador de Deus não é o cálculo ou o interesse, mas o apreço que leva ao dom de si, dom que vive, também ele, de apreço, na forma da confiança reconhecida e correspondida, da generosidade de um afeto grato, capaz de gerar um laço de mútuo reconhecimento. Porque a resposta que o dom implica não tem a forma da posse, mas a do reconhecimento; potência tão humilde, a de Deus criador15! Potência do não possuir para si, mas do dar e do dar-se a si mesmo com o dom que se dá ao reconhecimento de um outro. «Deus deu-me por amor, para que eu receba por amor. Deu-me o mundo por amor, para que eu o receba por amor»16.

Nesta lei está, precisamente, a possibilidade do pecado. Como afirma P. Beauchamp, «existe uma lei do amor que leva Deus a deixar ao homem a possibilidade de pecar»17. O dom da criação tem o seu cume na liberdade do ser humano que pode perverter o dom. A inveja e o medo podem ocu­par o lugar vital da confiança. «Eu quero ser Deus porque Deus é definido como aquele que não quer que eu seja como ele»18 (cf. Gn 3,1-7). A voz da suspeita faz o seu caminho, fazendo ressoar a falsidade. «O homem, desde o início do esplendor do primeiro dia da criação, suspeitou, sem motivo, mas convenceu-se de que o motivo existia e, desde então, começou a vê-lo»19. Deus que cria por amor e que, por amor, concede ao ser humano a dádiva da liberdade, capaz de o reconhecer e de lhe corresponder, amando, passa a ser pre-sentido e entre-visto como poder que, se se perder, levará Deus a deixar de ser Deus. «Assim, o pecado apresenta-se como vontade de matar Deus, acusando-o de ser o inimigo da nossa vida»20. O amor reconhecido deixa de bastar para alimentar a confiança. Quer-se a prova que não pode ser conhecida, mas, apenas, acreditada: «que se é ama­do»21. Porque o amor vive de fé, o afeto de apreço e os laços de confiança. Só pode ser reconhecido e correspondido. Eis a sua força. Eis a sua humildade.

Admiravelmente, diante da suspeita e da inveja, Deus cose vestidos verdadeiros (Gn 3,21), para cobrir a nudez de Adão e Eva que se veem indefesos na sua fragilidade, envergonhados pelos seus limites, inseguros na sua relação. No quadro que este gesto desenha, contemplamos Deus como justiça que não cessa de justificar o ser humano. Neste amor dedicado e delicado está a verdade de Deus, o apreço que motiva a disposição a pagar o preço. Fora deste amor, Deus não está. Fora deste amor, o homem e a mulher não estão à altura de si mesmos, como não estão à altura da criação. Esta será a história da salvação. Recorrendo, ainda, às palavras de A. Couto, «Deus não abandona esta humanidade invejosa e pecadora, não espera por ela à porta da eternidade, mas vem ao seu encontro como ela é, respeitando-a e assumindo a imagem falsa que esta humanidade invejosa e mentirosa fez de Deus». É longa a viagem da condescendência de Deus, desde Abraão, passando pela lei e os profetas e tantos personagens, com as suas histórias de vida e de fé, até Jesus Cristo, em quem «tudo se vê melhor», porque é o Filho (Gl 4,4-6) «que radicalmente se recebe (Jo 10,18; Ap 2,28) e radicalmente se entrega (Jo 10,17; Gl 1,4; 2,20; Ef 5,2.25; Tt 2,14), constituindo assim o acontecimento decisivo da humanidade, “plenitude” (pleroma) do tempo e do mundo, ma­turação da “salvação” (sôteria)»22.

Descendo ao abismo da entrega do Filho amado, o amor do Pai pela humanidade inteira e pelo seu mundo alcança o seu cume. O mais alto no mais baixo. O mais íntimo no mais exposto. O mais digno no mais humilde. A todo aquele que reconhecer tal dom e, livremente, se lhe aban­done, este amor-que-salva comunica a plenitude da vida (cf. Jo 3,16). Como precisa C. Doglio, «o ser de Deus manifesta-se como agápe, fez-se conhecer como “pró-afeição originária” e, no laço da história de Jesus com a história do mundo, revelou a beleza originária deste laço afetivo como saída de si, abertura ao outro e destinação à familiaridade consigo mesmo»23. A perfeição de Deus coincide com o Seu afeto, um laço que liga pelo reconhecimento24. Afirma S. Paulo que Deus nos demonstrou o seu amor pelo facto de, quando ainda eramos pecadores, Cristo ter morrido por nós (cf. Rm 5,8). E S. João confirma que Deus manifestou o seu amor quando mandou ao mundo o seu Filho Unigénito, para que tivéssemos a vida por meio dele (cf. 1Jo 4,9). É este apreço de Deus pelo ser humano e pelo seu mundo que dispõe Deus a pagar este preço. E recordemos com G. C. Pagazzi que «o mundo da carne do Filho não é só a humanidade, mas todas as coisas que viu, sentiu, gostou, tocou, cheirou», o mundo real com o qual esteve em con-tacto sensível, porque o «Redentor não é o Filho de Deus, mas o Filho de Deus encarnado»25. Neste sentido, «a nova lei do amor é tão antiga como a criação, quando Deus viu que todas as coisas eram boas, surpreen­dendo-se com a sua admirável honorabilidade, maravilhando-se com o seu valor». Esse é o apreço que, desde o início, dispõe Deus a oferecer-se no próprio Filho, só para não perder o homem e a mulher e o seu mundo que ninguém como o Filho encarnado amou tanto. «No originário a-preço de todas as coisas já vibrava o preço do Filho, do Mediador que em todas as coisas do Seu mundo via um tesouro, uma pérola digna de levar a vender todos os Seus bens (Mt 13,44-46), a Sua própria vida»26. Desta vida vivemos.

A experiência de ser amado e de amar restitui o homem e a mulher, seres sensivelmente espirituais e espiritualmente corpóreos, à graça da criação, à fecundidade das relações, ao gosto da vida a fa­zer-se em cada encontro, nas palavras e nos gestos de cada dia. Pelo amor e no amor aprendemos a ver mais e melhor, como quem entre-vê o sentido por entre linhas curvas; a tocar justamente cada coisa, acontecimento e pessoa, como quem é tocado por um dom surpreendente e sempre mais do que necessário; a escutar como quem pre-sente a promessa de cada palavra no timbre e na modelação justa dos sons que a anunciam e, claro, em cada silêncio; a apreciar melhor e em cada parcela da realidade o gosto e o perfume da bênção que as coisas, os acontecimentos e as pessoas são. Como a amada e o amado do Cântico dos Cânticos que re-entram no Jardim do Éden, não pela nostalgia das origens perdidas, mas pela vitória do amor sobre o egoísmo, da graça sobre o pecado, da confiança sobre o medo, do desejo ordenado em Deus sobre o desejo desordenado pelo próprio amor, querer e interesse. O amor recebido e retribuído permite reencontrar a dimen­são corpórea e relacional da nossa humanidade, com os seus ritmos quotidianos e os seus lugares comuns, onde se dá, de facto, a experiência de Deus. E permite reencontrar o mundo como casa onde sentimos ser de casa e nos sentimos em casa27, o espaço acolhedor e hospitaleiro, onde a posse cede, de novo, o lugar ao dom e o furto ao fruto28. Assim pode amar-se Deus em todas as coisas e amar todas as coisas em Deus. A história pode recomeçar, agora, com coisas novas e ain­da mais belas do que aquelas criadas no início29. Porque o amor é sempre novo e faz novas todas as coisas e não fica indiferente a quem dele se separa. «É um olhar “original” porque vê profundidade e significados que quem não ama não é capaz de entrever. Mas é “original”, também, porque reen­via para a experiência das “origens”, participando do olhar de Deus sobre a bondade e a beleza da criação», o tal apreço que diz a modelação originária do amor. «Se existe um pecado original […], também existe um olhar original sobre a realidade que deve ser absolutamente recuperado». E um escutar e um tocar e um saborear e um cheirar originais. E um estilo de encontros e de relações e de modos de habitar o mundo original. Assim, «só o amor, como fruto da ação do Espírito, está à altura de iluminar os sentidos e a mente, de conduzir a um discernimento autêntico e a uma ação consequente»30, inspirando e conformando, assim, o estilo “vivível” e visível de uma existência assinalada pela graça que salva.

Quem vive no amor, tão bem situado e tão grato, tão humilde e tão generoso, tão atento e tão ativo (não confunde a relação com Deus com alienação, nem o espiritual com o desencarnado), poderá dizer, em palavras e gestos, no corpo e na alma, «Ó Jesus, é por vosso amor». Professa a fé, declarando o amor, como Pedro: «Senhor, tu sabes tudo, bem sabes que te amo» (Jo 21,17), sabendo que, agora, permanecem a fé, a esperança e o amor, mas que maior que todas as coisas é o amor (cf. 1Cor 13,13). Não tendo outra casa onde sentir-se em casa, além desta pobreza alegre de viver, dia a dia, sob o olhar misericordioso do amor de Deus, ao qual co-responde em confiança, nem outra almofada onde descansar a cabeça do cansaço da vida, que não lhe será poupado, poderá rezar com as palavras de S. Inácio de Loiola, sugeridas como vértice do longo percurso dos seus Exercícios Espirituais.

«Tomai, Senhor, e recebei toda a minha liberdade, a minha memória, o meu entendimento e toda a minha vontade, tudo o que tenho e possuo; Vós mo destes; a Vós, Senhor, o restituo. Tudo é vosso, disponde de tudo, segundo a vossa inteira vontade. Dai-me o vosso amor e graça, que esta me basta» (n. 234).

A oração nasce do amor e tende para o amor. Quem tudo recebe e se recebe com gratidão (ser assim, é chegar a ser filho) poderá oferecer o que tem e oferecer-se a si mesmo com grandeza de ânimo. Em Deus-amor-que-nos-faz-ser-no-amor, a história de vida de cada um e de cada co­munidade poderá desenhar-se como ato de apreço, de acolhimento e de entrega confiada – de intercessão, de mediação – aos homens e mulheres que existem (não àqueles que se idealizam ou que se gostaria que existissem), neste tempo concreto da nossa história coletiva. Assim se dirá o amor e se realizará a salvação, fazendo-se eucaristicamente corpo (um estilo de vida eucarístico), nas relações e na família, na política e na cultura, na economia e nas ciências, nos ofícios e nas artes, como o Verbo que se faz carne para alimentar a vida de cada um, sobretudo dos que vivem sem alimento e que, só por si, não o conseguem alcançar. Cume e fonte da vida con-formada à vida de Jesus Cristo (é assim que se torna humana), re-cria cada pessoa, coisa e lugar, bendizente e fecundo. O amor salva-guarda a vida. Para que floresça, amável, como amável é a sua Origem e o seu Destino. Ó Jesus, é por vosso amor e por amor de todos os que amais.

Por José Frazão Correia

O teólogo P. Sequeri identifica a figura mitológica de Prometeu como representativa do homem e da mulher modernos, aquele que rouba o fogo aos deuses para o dar aos homens. Desafia o limite, violando a proibição e rompendo o encantamento de divindades ciumentas. O resultado é o castigo. Também Dionísio poderia avançar traços marcantes do ideal moderno, mas pela faceta da celebração da força da vida e das forças vitais da natureza. Assim, vai, também ele, ao encontro da sua destruição. Fica-lhe, porém, o prazer de se jogar na vertigem sem limites, o gozo da auto­nomia radical, bebido até à última gota.

Outra é a figura do homem e da mulher pós-modernos, Narciso, aquele que «vive do seu próprio encantamento: não suporta o incómodo dos afetos e o trabalho do reconhecimento, as expectativas do outro distraem-no do cuidado de si mesmo». Na realidade, vive mal, fechado no cuidado de si, no reflexo da sua imagem, ora exuberante, ora deprimida, tornando-se «perfeitamente insensível e afetivamente indiferente». Narciso vive fazen­do-se adorar, mas não repara em ninguém nem ama ninguém. «O mito, justamente, assinala a diferença. Prometeu deve sofrer a sua transgressão, mas permanece vivo. Narciso, pelo contrário, afoga-se no seu tédio, como um farrapo na água». O mundo encantado de Narciso, alimentado pelas inúmeras possibilidades da técnica e pelos muitos recursos da sociedade de consumo, vive obcecado pela imagem e pela realização de si. Mas, antes ou depois, esta acaba em frustração. Narciso não reconhece o amor. Narciso não ama. Na contemplação solitária de si, afoga-se em sim mesmo. Fechando-se, morre. Sozinho. Estéril.

Movidos por tal narcisismo auto-referencial, sem sonho nem rasgo, sem apreço nem disponibili­dade a pagar o preço por aquilo que se aprecia, sem criação nem geração, poderia acontecer que imaginássemos Deus, também Ele, como autorreferencialidade absoluta e apática, de facto, um Narciso Absoluto, sem afetos que o co-movam nem laços que o liguem. Mas estaríamos muito longe do traço bíblico do amor que se realiza como apreço e como dom que cria e recria, que gera e regenera. Nesse ídolo, a perfeição e a santidade viveriam protegidas de qualquer relação de afeto, de todo o laço livremente correspondido. Mas que perfeição e que santidade seriam?

Estas e outras imagens do divino e do humano encontram-se e embatem no juízo do Evangelho. Chegar a reconhecer a verdade de Deus na justiça da dedicação de Jesus e chegar a reconhecer, aí, a verdade e a justiça da nossa humanidade exige superar escândalos, não apenas aqueles criados pelo imaginário individual e cultural do divino, mas, também, aqueles cultivados por ritos sagra­dos, argumentados por teologias e protegidos por poderes religiosos. O amor do Filho encarnado, quando aceita ser identificado com a impotência humana, para que não seja confundido com a prepotência divina, assume distância clara do Deus ab-soluto, separado e apático, que não fala com mulheres samaritanas nem se deixa tocar por leprosos, que não entra em casa de publicanos, mas que, para preservar a própria ordem e o seu direito, é capaz de fazer cair torres para punir pecadores. Por isso e com a mesma tenacidade, se impede que a inteligência da fé possa identificar o amor revelado em Jesus como complemento sentimental do ser de Deus ou apêndice acidental da liberdade divina. Do mesmo modo, na revelação que Deus é amor e que sem amor, nós, não somos nada, não se joga uma afirmação simpática e agradável a ouvidos delicados, sentimental e culturalmente correta, mas, antes, a conversão à identificação do Ser com o Amor. Como também frisa P. Sequeri, no horizonte do dogma cristão, a palavra originária do ser não é a substância que se causa a si mesma (causa sui) e que sub-siste ab-soluta, isolada na sua riqueza e auto-suficiente em todas as suas perfeições. Tendo tudo, não precisa de ninguém. A palavra ori­ginária do ser não é o amor que se ama a si mesmo, mas é «a geração do Filho», o amor que faz ser o diferente de si e se alegra nele. Desde sempre, Deus é amor-que-gera, Pai que gera o Filho, não Pai que se causa a si mesmo e sub-siste sozinho. Com o primeiro Concílio Ecuménico de Ni­ceia, em 325, contra Ário, a ortodoxia da Igreja reviu-se na confissão de que não houve momento algum em que Deus não fosse Pai que gera o Filho e Filho gerado pelo Pai. Desde sempre, Deus é amor-gerado, Filho gerado pelo Pai, não Filho que se gera a si mesmo. Desde sempre Deus é amor-que-gera-e-que-é-gerado, Espírito Santo que não procede de si mesmo nem é anulado pelo Pai e pelo Filho, mas é o Respiro fecundo da Paternidade e da Filiação, a força e a forma vital do amor que circula entre Pai e Filho. Cada um é o que é, porque se recebe de outro, porque é para o outro. Nenhum vive separado do outro. Nenhum se funde ou se confunde com o outro. Diferença e relação dão forma à perfeição, na «perfeita aceitação recíproca, até à identidade: um só Deus». Aqui, na intimidade da vida trinitária, onde há lugar afetivo e efetivo para o diferente, sem defesa nem ciúme, existir segundo a lei do amor encontra a sua origem primeira, a sua medida perma­nente, o seu destino último. É o amor que «sustenta a eterna geração do Logos e a criatividade do Espírito» (à palavra amor, Sequeri prefere o termo grego agápe ou pró-afeição, dada a desvitalização sentimentalista a que a palavra amor, hoje, está sujeita). É, pois, o amor que diz, agindo, a palavra que tudo cria e que traz Adão e Eva à vida. É ele que estabelece a aliança que jamais passará. É o amor que gera o Verbo no ventre de Maria. É o amor que salva a vida de leprosos e de mulheres e de homens de má vida e que leva Jesus à entrega da própria vida na cruz. Assim nos resgata de todas as formas de mal, a maior de todas, a morte pelo pecado. É o amor derramado nos nossos corações pelo Espírito que nos foi dado que nos santifica. É ele que sustenta o testemunho da Igreja. Interessa, assim, relembrar que o amor de Deus se apresenta e se representa como apreço que faz ser-em-ação-de- -gerar, desde logo «a partir do ato de criar (e de recriar e de redimir e de realizar para lá de toda a expectativa imaginada) o habitat para o humano e o humano [criado] à sua imagem, inscrevendo o seu sopro nele». O amor é este ser-assim, a razão primeira e a lei constituinte de cada homem, mulher e grupo humano e de todas as coisas saídas das mãos do Criador. No amor que nos gera à vida e no amor que nos faz gerar a vida na vida de qualquer outro, todos, somos salvos. Deste amor, nada se perderá, porque é desde sempre e é para a eternidade

Por José Frazão Correia

De Deus, dizem-se tantas coisas. Por isso, como sugere E. Salmann, «deveremos ouvir o coro imen­so dos gritos, das orações e das blasfémias, das invocações e das conclusões filosóficas, a gaguez e a eloquência que acompanham esta palavra»: Deus.

Hoje, para muitos Deus é indiferente, vazio, irrelevante. Para outros, continua a ser imprevisível e ameaçador. Por Ele se morre e por Ele ainda se mata. Às crianças diz-se que é amigo. Há quem diga que, por ser Absoluto, é insensível a qual­quer afeto e desligado de qualquer laço. Já se disse que é motor imóvel – sem se mover, tudo põe em movimento. É possível que seja o Sumo bem e a Suma beleza, modelo perfeitíssimo e puro que fascina e que atrai, ainda que intocável e inalcançável. Ouvimos dizer, também, que é causa de si mesmo e que subsiste só por si. Que é espaço amorfo, ambiente materno, o nada onde seremos tudo ou o tudo onde seremos nada. Que é projeção das nossas ambições e dos nossos medos. Sendo tanto e tantas coisas, para uns, é demasiado. Para outros, é demasiado pouco. É abstrato e distraído, afastado e apático. É coisa sempre à mão e é fetiche. É fascinante e é tremendo.

Dito tudo isto, entre o muito mais que poderíamos dizer, há ainda perguntas que permanecem. Se Deus fosse mera explicação para o que ainda não sabemos, mereceria o melhor de nós mesmos? Se não fosse mais do que o resultado argumentativo da nossa inteligência ou do que a magia de um momento gratificante ou do que o fugaz arrepio da alma, mereceria que lhe entregássemos todo o nosso afeto? Se fosse a resposta predefinida para todos os problemas, o tapa-buracos da nossa incompreensão dos mistérios do universo e da existência, mesmo que animando a mente, poderia reconfortar a vida? E se fosse uma espécie de mãe galinha que abafa as suas crias, não lhes deixando espaço para o respiro e o crescimento, poderíamos sentir-nos livres na sua presença e confiar na gratuidade dos seus dons? Se fosse omnipotente como são os reis poderosos ou man­dão como são os pais tiranos, não nos levaria a fugir à primeira oportunidade? Se Deus não esti­vesse nos inícios como bênção e se não acompanhasse o caminho real dos homens e mulheres que existem, através dos abismos e das fraturas da sua humanidade, e se não abrisse a possibilidade de uma esperança que reconforte o coração, depois de uma difícil e longa jornada, como poderíamos confiar n’Ele e como poderíamos confiar-nos a Ele? Outra coisa é se Deus for dádiva de si e que, por isso, cria o mundo e o aprecia na sua diferença e gera a vida na vida de cada um, também na daqueles que o olham com indiferença e, até, com inimizade, e a aprecia ainda mais; se for ternura que deseja a alegria e que abençoa a inventividade humana; se for descrição da liberdade que dá tempo ao tempo de cada um, que dá a palavra para que cada um chegue dizer-se e as capacidades para que venha a ser o que pode ser; se for afeto que sacia o desejo mais íntimo de relações justas e que gera um laço ajustado de mútuo reconhecimento… Se for assim, então, Deus acabará por encontrar lugar no melhor de nós mesmos e o desejo de vida que há em nós chegará a reconhecer-se salva-guardado n’Ele e por Ele.

E o humano? Hoje, como no passado, direta ou indiretamente, continuamos a perguntar pela ver­dade da nossa humanidade e do desejo que nos move, pela razão da nossa origem e pelo sentido do nosso destino, pela forma ideal do bem e pelo sentido da liberdade. O diagnóstico, também aqui, seria múltiplo. Ainda assim, poderíamos destacar um traço do ambiente cultural que parti­lhamos, que, creio, é motivo bastante para nos deixar apreensivos.

 

O teólogo P. Sequeri identifica a figura mitológica de Prometeu como representativa do homem e da mulher modernos, aquele que rouba o fogo aos deuses para o dar aos homens. Desafia o limite, violando a proibição e rompendo o encantamento de divindades ciumentas. O resultado é o castigo. Também Dionísio poderia avançar traços marcantes do ideal moderno, mas pela faceta da celebração da força da vida e das forças vitais da natureza. Assim, vai, também ele, ao encontro da sua destruição. Fica-lhe, porém, o prazer de se jogar na vertigem sem limites, o gozo da auto­nomia radical, bebido até à última gota.

Outra é a figura do homem e da mulher pós-modernos, Narciso, aquele que «vive do seu próprio encantamento: não suporta o incómodo dos afetos e o trabalho do reconhecimento, as expectativas do outro distraem-no do cuidado de si mesmo». Na realidade, vive mal, fechado no cuidado de si, no reflexo da sua imagem, ora exuberante, ora deprimida, tornando-se «perfeitamente insensível e afetivamente indiferente». Narciso vive fazen­do-se adorar, mas não repara em ninguém nem ama ninguém. «O mito, justamente, assinala a diferença. Prometeu deve sofrer a sua transgressão, mas permanece vivo. Narciso, pelo contrário, afoga-se no seu tédio, como um farrapo na água». O mundo encantado de Narciso, alimentado pelas inúmeras possibilidades da técnica e pelos muitos recursos da sociedade de consumo, vive obcecado pela imagem e pela realização de si. Mas, antes ou depois, esta acaba em frustração. Narciso não reconhece o amor. Narciso não ama. Na contemplação solitária de si, afoga-se em sim mesmo. Fechando-se, morre. Sozinho. Estéril.

Movidos por tal narcisismo auto-referencial, sem sonho nem rasgo, sem apreço nem disponibili­dade a pagar o preço por aquilo que se aprecia, sem criação nem geração, poderia acontecer que imaginássemos Deus, também Ele, como autorreferencialidade absoluta e apática, de facto, um Narciso Absoluto, sem afetos que o co-movam nem laços que o liguem. Mas estaríamos muito longe do traço bíblico do amor que se realiza como apreço e como dom que cria e recria, que gera e regenera. Nesse ídolo, a perfeição e a santidade viveriam protegidas de qualquer relação de afeto, de todo o laço livremente correspondido. Mas que perfeição e que santidade seriam?

 Por José Frazão Correia

«“Deus é amor, e quem permanece no amor permanece em Deus e Deus nele”» (1Jo 4,16). Estas palavras da I Carta de João exprimem, com singular clareza, o centro da fé cristã: a imagem cristã de Deus e também a consequente imagem do homem e do seu caminho. Além disso, no mesmo versículo, João oferece-nos, por assim dizer, uma fórmula sintética da existência cristã: “Nós conhe­cemos e cremos no amor que Deus nos tem”».

O pórtico de entrada da Encíclica Deus caritas est, de Bento XVI,enuncia o essencial. O amor diz ou, melhor, faz a verdade de Deus e a sua justiça. No amor, a nossa humanidade reencontra e realiza a sua verdade. E a sua justificação. Aí, só aí, se re-encontra, verdadeiramente e de modo ajustado, com o mistério da sua origem e a memória grata do recebido – o corpo e os seus senti­dos, os outros e a língua, a natureza e a cultura. E, também, como diria o poeta D. Faria, «a nota mais aguda de um oboé que late/E o uivar dos lobos/E a noite. E o dia depois dela…». Quando libertos da suspeita e salvos do orgulho, nas muitas experiências efetivas do amor, pode chegar-se a reconhecer que tudo é graça; por fim, até os limites, as perdas e o custo real da vida de cada dia e de cada relação. No amor, a humanidade reencontra-se com o húmus da sua terra, com a história feliz dos encontros que geram a vida e os momentos bons que tecem a vida de cada dia. De forma justa, aqui se reencontra, também, com o mistério do seu destino e com a responsabilidade da tarefa criativa de dar uma forma sensata à promessa que sustenta e move a existência. Criados à imagem e semelhança de Deus que é amor, trazemos no corpo e na alma a marca indelével desta origem que nos constitui e nos espera, resgatando-nos a partir do que ainda nos poderá fazer ser. Por isso, é na fecundidade do amor real, aquele que se vive quotidianamente como recebido e como dado, que o homem e a mulher se reconhecem e se reencontram em verdade, também com a natureza que habitam. Aí, só aí, podem desenhar e realizar um estilo de vida capaz de viver do reconhecimento do dom de Deus e da geração da vida na vida de outros, precisamente daquela vida que bebe do mistério originário do amor e a ele suspira como seu destino.

Modelados «da nossa terra pura e fecunda» e embalados pelas «mãos maternais de Deus» – são expressões felizes de A. Couto – «o beijo de Deus no rosto do homem» é «o sentido que nos habita e habita o mundo, que nos faz ser e faz ser o mundo», é «a razão boa e a intencionalidade boa que nos anima e anima o mundo, que nos ama e ama o mundo». Eis Deus e o mais elementar do ser humano e do mundo, o seu princípio e fundamento. É, sem equívoco, a dupla palavra da revelação. «Deus é amor» (1Jo 4,16). Sem amor, eu «não sou nada» (1Cor 13,2). Nesta verdade, que de abstrato nada tem, se decide, concretamente, o que somos e o que ainda poderemos vir a ser. Mas eis, também, o motivo mais íntimo da fé cristã quando, na trama da própria existência, alguém chega a re-conhecer e a decidir-se pelo amor incondicional que Deus lhe revela quando se lhe dá e, assim, se diz nas palavras e nos gestos de seu filho encarnado, Jesus de Nazaré. A linguagem da autorre­ferencialidade e a morte que esta traz consigo (o pecado que mata) converte-se à linguagem do Crucificado que se recebe do Pai e daqueles que encontra no caminho e se dá, até ao fim, pela vida de todos, nenhum excluído (a graça que salva).

Exposto a esta verdade crucificada, o crente chega ao reconhecimento de que é amado por Deus, desde sempre e quando ainda era pecador (cf. Rm 5,8). E assim reconhece que tal amor é a possibi­lidade originária do seu poder amar os outros e a vida e o mundo e o próprio Deus. Sabe que pode amar, porque reconhece, comovido e grato, que já é amado desde o seio materno. A declaração de amor que gera a sua profissão de fé, “Deus ama-te, por ti dá a vida”, não é letra morta, enunciado sem significado ou eco indistinto, porque a sua força regeneradora lhe vai tocando cada membro do corpo e os seus sentidos e as fibras mais íntimas da alma. Comove o afeto e alegra a inteligên­cia, sacia o desejo e move a liberdade que, libertando-se da suspeita e da falsidade (pecado), se dispõe a viver sob o olhar bendizente de Deus, no desejo e na disposição de o amar em todos e em todas as coisas e de amar, a todos e a todas as coisas, n’Ele, até que Deus chegue a ser «tudo em todos» (1Cor 15,28), toda a vida na vida de todos. Dispondo-se a esta verdade originária e decidin­do-se por ela, o homem e a mulher que vivem da fé em Jesus Cristo movem-se no reconhecimento de que Deus os ama desde sempre, antecipando a sua própria possibilidade de lhe co-responder amorosamente. Ainda que única e livre, sabem que a resposta que derem é, ela mesma, susten­tada pelo amor de Deus que precede e funda a possibilidade de lhe co-responderem. Reconhecem que, na verdade, podem amar, porque são amados. Poderão gerar, porque são gerados e perdoar, porque são perdoados. Poderão dar-se, porque são dados à luz e recebem o que são do que Deus e os outros são para eles. Este é, pois, o lugar primeiro e último onde a existência se decide. Quem confiar no amor que aprecia, gera e resgata a vida e a ele se confiar será salvo. Quem duvidar e dele se separar, defendendo a vida só para si, mesmo à custa da vida de outros, perder-se-á.

por José Frazão Correia

 

 

«Sacrificai-vos pelos pecadores e dizei a Jesus, muitas vezes, em especial sempre que fizerdes al­gum sacrifício: Ó Jesus, é por Vosso amor, pela conversão dos pecadores e em reparação pelos pe­cados cometidos contra o Imaculado Coração de Maria». Na manhã do dia 13 de julho, «a Senhora» reanima o «fervor decaído» de Lúcia e dos primos expostos às dúvidas próprias e às desconfianças alheias, sendo as mais duras, aquelas dos mais próximos. Nossa Senhora, confirma-os e ensina-os, assinalando-os com a palavra que deverá acompanhar cada seu futuro ato de entrega: «Ó Jesus, é por vosso amor». A simplicidade desta oração, que ressoa mais autêntica na boca de crianças ou de quem é como elas, expõe o essencial do que está a acontecer na vida dos pastorinhos – nos seus corpos, afetos, relações, imaginação, compreensão das coisas e ações. E tem como alcance o mistério de Deus, que não deixa de cuidar da vida de cada um, e o mistério do destino definitivo da existência humana, profundamente dramático se separado da fonte da vida. Joga-se, portanto, a realização plena do destino do ser humano e do mundo na justa relação com Deus: a salvação da morte e das suas muitas manifestações; a salvação para a vida e para as suas muitas realizações.
Uma declaração de amor que se desenha no espaço do reconhecimento impede que o sacrífico se baste a si mesmo e a mortificação se sobreponha ao sentido da entrega a Deus pelo bem dos pecadores. O amor, a re-conhecer e a co-responder nos pequenos momentos e encontros de cada dia, é o ambiente, o motivo e o alcance, a fonte, o caminho e o cume da intercessão a que os pastorinhos, radicalmente, se ligam. As crianças deixam de se poder compreender por si mesmas. E deixarão de poder viver para si mesmas. Extraordinária é a grandeza da autenticidade humana e da infância espiritual! As suas vidas passam a sentir radicalmente a vida de outros, a sentir a partir da vida de outros. O Outro que é Deus e os outros que são os pecadores passam a determinar a sua identidade.
No ambiente originário do olhar misericordioso de Deus, reafirmado pela «Senho­ra», aprendem a dizer, em palavras e gestos, não posso viver sem ti (não será esta confiança e este descentramento o lugar vital da fé?). Não poderão viver sem Jesus e sem ser para ele. Não poderão viver sem os pecadores e sem agir em seu favor. É o apreço por Jesus e pela conversão dos pecadores (a reorientação do conjunto da existência real, a partir do amor de Deus e do bem dos irmãos) que irá dispondo as três crianças a oferecerem e a oferecerem-se no preço desta mediação. Elas próprias, inteiras, corpo e alma, serão lugar de mediação. Por amor, reconhecem-se vitalmen­te ligadas à sorte dos pecadores, assumem-na como sua, oferecem-se pela mudança do seu curso (vêm à memória os gestos e as palavras do bom samaritano, narrados em Lc 10,25-37). Os gestos tornarão real o amor. A palavra explicitará o sentido. Assim estendem uma ponte – estendem-se, elas próprias, como ponte – entre Deus que não deixa de amar e aqueles que não se deixam amar e não amam. E não creem, não adoram, não esperam.
O espaço dramático da inimizade entre a graça-que-salva e o pecado-que-mata é habitado pela intercessão humilde do amor que deseja a vida para quem a perdera e, assim, quer consolar o coração de Deus, ferido de amor. Como força e forma da mediação, o amor desenhará cada gesto de entrega que a palavra «é por vosso amor» reafirmará.

por José Frazão Correia

As aparições de Nossa Senhora em Fátima, fará 100 anos a 13 de Maio de 1917.

Para os que de algum modo a conheceu, se viu envolvido ou tocado pela Mensagem de Fátima, é convidado a fazer uma retomada de vida diante dos Apelos que Deus nos trouxe através de Nossa Senhora.

Antes de tudo foi um Apelo de Amor, o coração misericordioso de Deus se compadeceu e compadece diante dos horrores do pecado que assola a humanidade, mas que por primeiro assola o ser humano atingindo a sua dignidade de filho de Deus.

Nesse tempo em que a comportas do céu estão escancaradas a espera  que o pecador se converta e entre por ela, pois a Igreja em sua Sabedoria institui esse ano da Misericórdia, tempo extraordinário preparado e querido por Deus para abarcar toda a humanidade.  O Pai Celeste quer que todos ocupemos o lugar que Jesus preparou para nós no Céu, para viver eternamente na sua presença.  O que Ele nos preparou é grandioso, é inexplicável e imensurável… Eis que vivemos no tempo favorável, eis que estamos no tempo da salvação (2 Cor 6,2)

Não esqueçamos que estamos na leva dos pecadores, embora caminhemos a anos com o Senhor ou a pouco tempo, sempre seremos pecadores necessitados de conversão. Apossemos do tempo de graça, não protelemos a nossa conversão, nos empenhemos na busca sincera de Deus. Não basta ir nas coisas da Igreja, é preciso estar atentos de como a vivenciamos quando participamos da Santa Eucaristia, que sentido dou a ela, como está meu coração quando busco o Sacramento da Reconciliação, se há de fato contrição e arrependimento, ao rezar o terço onde está meu pensamento e o meu coração? Sim nos dispersaremos e até perdemos o sentido do que fazemos, as vezes é rotineiro e repetitivo o que fazemos,  pois a natureza humana é frágil e limitada, mas Jesus nos pede sedes perfeitos como o vosso Pai do Céu é perfeito.(Mt 5,48)

Mas qual o motivo de Jesus nos pede a perfeição? Para que não nos relaxemos, mas tomando a consciência de que a nossa natureza humana é frágil, que podemos nos trair, embora desejosos de fazer a vontade de Deus acabamos fazemos o mau que não queremos (Rm 7, 19) Jesus quer que lutemos para alcança a perfeição, mesmo sabendo que nunca a alcançaremos, a não ser que Deus nos conceda a graça de alcança-la, mas precisamos nos esmerar, lutar para chegar no máximo que devemos ser, o máximo que podemos atingir da perfeição, pois tudo que somos e o que fazemos precisa e deve nos conduzir a chegar a meta final o céu. A nossa vida só tem sentido se caminharmos para ganhar o céu.

Quão forte é a jaculatória que Nossa Senhora ensinou aos Pastorinhos na Aparição e Fátima, e que rezamos ao findar cada mistério do Rosário, e podemos reza-la varias vezes durante o dia: Oh meu Jesus perdoai nos e livrai-nos do fogo do inferno, levai as almas todas para o céu e socorre principalmente as que mais precisarem.

Essa oração é um clamor ao céus para as almas que estão a beira do abismo sejam resgatadas por Deus e retomem o caminho que a conduzirão para Deus, e que nenhuma se perca.

O drama da história humana tocada pelo pecado é apresentado com uma lucidez viva na mensagem de Fátima. O drama do pecado é ali profeticamente denunciado, traduzido nas visões do inferno e da cidade em ruínas e nas inúmeras referências aos pecadores, sobre quem recai a atenção da misericórdia de Deus. O pecado transparece como génese da tragédia humana, face à qual surge a urgência da conversão. Do fundo do desamor, a conversão é adesão ao amor de Deus. O apelo à conversão é nuclear na mensagem de Fátima e evoca o drama da redenção.

Face à visão do inferno, a pequena Jacinta pergunta: «que pecados são os que essa gente faz para ir para o Inferno?» E a prima Lúcia, na inocência da sua infância, tenta uma resposta: «Não sei. Talvez o pecado de não ir à missa ao Domingo, de roubar, de dizer palavras feias, rogar pragas, jurar.» A dimensão pessoal da conversão é central na mensagem de Fátima. E, no entanto, o apelo à conversão feito em Fátima não se esgota na sua dimensão pessoal: ele é também convocação ao dom de si pela conversão dos outros e pela conversão dos dinamismos da história, na certeza de que a comunidade dos crentes, no discipulado de Cristo, tem um ministério de conversão. Logo na primeira oração do Anjo, o drama do mal está presente: «Peço-vos perdão para os que não creem, não adoram, não esperam e não vos amam.» Os sacrifícios pela conversão dos pecadores serão expressão da oferta sacrificial que os pastorinhos fazem de si mesmos em prol dos demais.

(Fonte: santuario.pt)

Na sua primeira aparição, o Anjo apresenta-se com um convite à adoração a Deus. De joelhos, curvado até ao chão, convida as três crianças à adoração que transforma a fé em esperança e amor: «Meu Deus eu creio, adoro, espero e amo-vos. Peço-vos perdão para os que não creem, não adoram, não esperam e não vos amam.» Este espírito de adoração na fé, que se abre em espírito reparador na esperança e no amor, é concretizado na oração que o Anjo ensina aos pastorinhos na sua última aparição: «Santíssima Trindade, Pai, Filho e Espírito Santo, adoro-vos profundamente e ofereço-vos o Preciosíssimo Corpo, Sangue, Alma e Divindade de Jesus Cristo, presente em todos os Sacrários da terra, em reparação dos ultrajes, sacrilégios e indiferenças com que Ele mesmo é ofendido. E pelos méritos infinitos do Seu Sacratíssimo Coração e do Coração Imaculado de Maria, peço-vos a conversão dos pobres pecadores.»

Fátima recorda a centralidade da adoração, enquanto disposição interior que nos situa diante de Deus, mistério de graça e misericórdia. A gramática da adoração é a entrega humilde da existência nas mãos de Deus, o reconhecimento de Deus enquanto Deus e de si mesmo enquanto filho amado. E, nesse processo, purifica-se o crente, o seu olhar e o seu agir, à luz do amor com que o próprio Deus o ama.

Os pastorinhos foram pródigos no espírito de adoração. Surpreende o jeito contemplativo com que o Francisco procurava o recolhimento e o silêncio para «pensar em Deus» e para o consolar. 

(Fonte: santuario.pt)

A urgência da conversão foi amplamente acentuada na Mensagem de Fátima, em que Nossa Senhora recomenda a penitência, a reparação pelos pecados, pedindo também aos homens: «Não ofendam mais a Deus Nosso Senhor que já está muito ofendido».

O mundo contemporâneo, tanto na Europa e na América, como na Ásia, África, Austrália e na Oceania, precisam de se converter. De um e de outro lado, difunde-se um materialismo de vida, teórico e prático, e um hedonismo de costumes que contrariam frontalmente o Evangelho de Cristo e representam um regresso ao paganismo.

Como escreveu o Santo Padre Paulo VI, na Exortação Apostólica Evangelii Nuntiandi, é necessário “atingir e mudar, de alto a baixo, pela força do Evangelho, os critérios de julgar, os valores determinantes, os centros de interesse, as linhas do pensamento, as fontes inspiradoras e os modelos da vida da humanidade que se opõem à Palavra de Deus e ao plano da salvação” (n.19).

Nossa Senhora fez o pedido em 1929, que o Santo Padre fizesse a Consagração ao Seu Coração Imaculado, em união com os bispos do mundo inteiro, com uma menção especial da Rússia. Também esta Consagração se realizou em 25 de Março de 1974, quando foi levado a Imagem da Capelinha para Roma. E a consagração da Rússia foi aceite pelo Céu, e a conversão da Rússia se realizou. Ela abandonou as suas falsas doutrinas, que era o ateísmo, e a Rússia se converteu.

Com a consagração ao Coração Imaculado de Maria também nós fomos entregues a este Coração; também deve realizar-se a nossa conversão, para a graça de Deus, para construir na nossa alma o templo de Deus…

O acontecimento de Fátima está desde o início centrado em Deus Trindade. A luz e a beleza que irradiavam da presença do Anjo e da Senhora e inundavam as três crianças eram as mãos estendidas de Deus, que na bondade do seu Amor a todos abraça. A presença de Deus, recorda Lúcia, «era tão intensa que nos absorvia e aniquilava quase por completo. Parecia privar-nos até do uso dos sentidos corporais por um grande espaço de tempo. […] A paz e felicidade que sentíamos era grande, mas só íntima, completamente concentrada a alma em Deus».

Esta experiência tão íntima de Deus não deve ser entendida como simples perceção extraordinária do sagrado ou do mistério. Deus não é simplesmente o arquiteto do mundo ou a chave para explicar a realidade. Deus é Pessoa viva que está próxima das suas criaturas. Os pastorinhos foram protagonistas de um encontro pessoal com Alguém que vinha ao seu encontro, desvelando os seus desígnios de misericórdia: foi assim que compreenderam «quem era Deus, como [os] amava queria ser amado». Esse Deus que ama e quer ser amado é a Trindade, «que [os] penetrava no mais íntimo da alma». E por isso à Trindade Santa é dirigida uma das orações mais originárias e genuínas de Fátima: «Santíssima Trindade, Pai, Filho, Espírito Santo, adoro-Vos profundamente…».

O encontro com Deus é vivido pelas três crianças como fonte de profunda felicidade e alegria. A oração brota, por isso, de modo espontâneo na sua intimidade, como uma disposição constante que há de manter vivo um diálogo que transformara definitivamente as suas vidas. E, desde o princípio, sentem que a adoração é o modo de estar diante d’Aquele que está acima de todos os ídolos que pretendem seduzir os seres humanos.

Fonte: Carta Pastoral da Conferência Episcopal Portuguesa no Centenário das Aparições de Nossa Senhora em Fátima