Fátima é o convite para reparar os pecados cometidos contra Jesus e Sua Mãe e consolar estes dois Santíssimos Corações. Ao mesmo tempo revela ao mundo a grande promessa da nossa própria salvação.

O sofrimento, desde a entrada do pecado no mundo, é inevitável para os homens. Já outrora, sofreram Cristo e o ladrão, ao mesmo tempo: no entanto, enquanto Cristo rezava, um dos ladrões blasfemava; alma de Jesus manifestava o céu e a outra a escuridão. Hoje também nesta diferença se encontra a solução do problema.

A única causa do sofrimento do mundo é o pecado; e o bom ladrão reconheceu em Jesus o Rei imortal, que pela porta da morte entrava no Seu Reino, e abria o céu outros, para «justificá-los» e levá-los consigo. «Ainda hoje estarás comigo no Paraíso – disse Jesus ao bom ladrão. – Levar-te-ei comigo, tu serás já o fruto doce da minha amarga paixão.»

Junto da Cruz de Jesus encontrava-se ainda Sua Mãe, cujo Coração era traspassado de dor. Toda a Sagrada Escritura apresenta Maria estreitamente unida ao Seu Filho Divino, e sempre participante da sua sorte. Acima de tudo deve recordar-se que, desde o século segundo, a Virgem Maria é apresentada como a nova Eva, estreitamente unida ao novo Adão, embora a Ele sujeita. Mãe e Filho aparecem intimamente unidos na luta contra o inimigo infernal, luta essa que, como foi pré-anunciada no Protoevangelho, havia de terminar na vitória completa sobre o pecado e a morte, que o Apóstolo das gentes sempre associava nos seus escritos. Assim, o amor de Deus que não poupava o Filho, também não poupava a Mãe, e conduzia também a «serva» seguindo o Filho na amargura, infâmia, na vergonha. O Coração Imaculado sofria com O adorável Coração do seu Filho. E Jesus não mandou esculpir esta sua Paixão e morte em pedra ou madeira; os evangelistas descreveram-nas só com poucas palavras. Mas quis que Maria guardasse tudo no seu Coração; Ele confiou as Suas chagas, dores e súplicas ao Coração de Sua Mãe; ele depositou e guardou, e é este Coração que nos pode tudo transmitir; por isso, quem quer aprofundar-se nos sentimentos reparadores de Jesus, tem que procurar Sua Mãe. 

Foi unicamente Jesus que exemplarmente seguiu este caminho da reparação. Ele aceitou-o por nós, tomando corpo humano, e dando o seu sangue e a sua vida pela vida do mundo. Pela sua cruz tornou-se a nossa reparação. São Paulo explica: “Deus, porém, demonstra o Seu amor para connosco, pelo fato de Cristo haver morrido por nós, quando ainda éramos pecadores… sendo nós inimigos, fomos reconciliados com Deus mediante a morte de Seu Filho, com muito mais razão, depois de reconciliados, seremos salvos pela Sua vida.” (Rom 5, 8.10)

Esta reparação de Jesus não significa de modo nenhum que Ele tenha feito tudo por nós, o que aliás nós devíamos ter feito! Certo é, que por nós próprios nunca a teríamos conseguido, e por isso a redenção ficará unicamente obra de Cristo. Tanto mais nos importa perceber, que o Salvador deu-nos também a possibilidade de poderemos tomar parte, em completar a Sua obra redentora. Desta maneira nós poderemos ultrapassar a preocupação pela nossa própria salvação e abrir-nos às intenções do amor misericordioso de Jesus e Maria, manifestadas em Fátima. Isto nos ensina o exemplo dos Pastorinhos, que tanto se preocupavam em salvar as almas do inferno e reparar os Corações de Jesus e Maria, unindo-se ao amor dos mesmos Corações, cuja preocupação é a salvação de todos… As vidas Pastorinhos não tiveram unicamente o fim de santificar a si próprios, mas o centro das suas preocupações, a sua missão era ajudar a salvar todos. Assim lhes deu o Anjo a entender, ensinando–os a crer, adorar, esperar e amar por aqueles que não creem, não adoram, não esperam e não amam.

Quem examina profundamente a mensagem de Fátima, pode ficar interiormente chocado pela aparentemente excessiva preocupação pela salvação das almas, de que tanto fala, os espinhos cravados no Coração da Virgem, a constante importunação da referência ao pecado… Mas tomará também conhecimento duma outra realidade maravilhosa: a consolação interior, que lhe é dada por esta preocupação pelos outros, a certeza que tomará parte no destino final dos Pastorinhos. Conformados na lei “de nos entregarmos pelos outros”, poderemos esperar participar naquilo que os esperava na Casa do Pai.

Fátima é o convite para reparar os pecados cometidos contra Jesus e Sua Mãe e consolar estes dois Santíssimos Corações. Ao mesmo tempo revela ao mundo a grande promessa da nossa própria salvação.

«…Olha, minha filha, o Meu Coração cercado de espinhos que os homens ingratos a todos os momentos Me cravam, com blasfêmias e ingratidões. Tu, ao menos, vê de Me consolar e diz….»

É grande a incompreensão diante deste caminho da salvação de Deus e em Fátima pedido pela Santíssima Virgem. É difícil crer que Deus, no seu infinito amor para conosco e na sua sabedoria, não pudesse encontrar outro caminho, sem ser o da reparação, do sacrifício, da renúncia e abnegação que tanta tristeza causa, tanto custa, tanto cansaço e miséria traz consigo.

No entanto: se, por um lado é evidente que Deus é santo, – que quer dizer que Nele não existe mancha do mal, nem é indiferente ao nosso sofrimento, nunca procura vingança, nem é intransigente – Ele é infinitamente bom; mas, por outro lado ao constatarmos, o sofrimento horrível de muitos, a existência de contradições sem solução, que só a custo se toleram, teremos que concluir que o sofrimento tem que servir para alguma coisa, porque só assim pode existir e continuar no mundo. E para que será bom?… É uma contínua chamada à reparação, que Deus nunca pode dispensar. Nada do que vem de Deus é tomado por tão grande mal, como esta exigência para a prática da reparação. No entanto o sofrimento é um meio excelente, para chegar à conversão, à mudança de espírito, humildade e generosidade. Reparação significa portanto a concretização da salvação.

Temos que olhar para Aquele que veio para reparar os pecados do mundo: o Cordeiro de Deus. Pilatos apresentou ao povo Jesus, coroado de espinhos, como a revelação mais amável e mais ardente de Deus: Jesus, o homem, com profunda humildade e decidido a reparar os pecados da humanidade, porque Deus, com justa penitência, assim decretava: só o sangue de Jesus seria capaz de reparar os pecados de toda a humanidade.

«…o Seu aspecto não podia cativar-nos. Era desprezado. Era a escória da humanidade, homem das dores, experimentado nos sofrimentos: como aqueles, diante dos quais se tapa o rosto, era menosprezado, nenhum caso faziam dele. Na verdade ele tomou sobre si as nossas doenças, carregou as nossas dores!… Foi castigado pelos nossos crimes, e esmagado pelas nossas iniquidades: o castigo que nos salva pesou sobre ele, fomos curados nas suas chagas… morto pelos pecados do Seu povo… embora não haja cometido iniquidade… porque ele próprio entregou a Sua vida à morte… tomando sobre si os pecados de todos…»(Is 53,4-12)

Jesus aceitou livremente estes sofrimentos que a Seu respeito Isaías tinha anunciado. Ele várias vezes explicou também aos apóstolos, mesmo a Pedro que não gostou de tais notícias. No entanto Jesus sublinhava que desta Sua obra dependia a salvação do mundo.

Também as almas cristãs assim entenderam: Era necessário que Jesus sofresse, para realçar a gravidade do pecado. E este rosto sério e sofredor de Jesus deve comover as almas.

Porque queria meter Jesus tanto tormento, tanta energia, tanta força e heroísmo na Sua Paixão? Ele queria acender assim melhor também o nosso amor; testemunhando com o Seu sangue o Seu grande amor, queria que nós também pegássemos como Ele na nossa cruz, em espírito de reparação. Jesus confia na força da sua paixão para comover os corações humanos. «Deus quando ama, – diz S. Bernardo, – não quer outra coisa senão ser amado; isto é, não ama por outro motivo senão para ser amado, sabendo que o próprio amor torna felizes os que se amam entre si.»

O sofrimento, desde a entrada do pecado no mundo, é inevitável para os homens. Já outrora, sofreram Cristo e o ladrão, ao mesmo tempo: no entanto, enquanto Cristo rezava, um dos ladrões blasfemava; alma de Jesus manifestava o céu e a outra a escuridão. Hoje também nesta diferença se encontra a solução do problema.

A única causa do sofrimento do mundo é o pecado; e o bom ladrão reconheceu em Jesus o Rei imortal, que pela porta da morte entrava no Seu Reino, e abria o céu outros, para «justificá-los» e levá-los consigo. «Ainda hoje estarás comigo no Paraíso – disse Jesus ao bom ladrão. – Levar-te-ei comigo, tu serás já o fruto doce da minha amarga paixão.»

Junto da Cruz de Jesus encontrava-se ainda Sua Mãe, cujo Coração era traspassado de dor. Toda a Sagrada Escritura apresenta Maria estreitamente unida ao Seu Filho Divino, e sempre participante da sua sorte. Acima de tudo deve recordar-se que, desde o século segundo, a Virgem Maria é apresentada como a nova Eva, estreitamente unida ao novo Adão, embora a Ele sujeita. Mãe e Filho aparecem intimamente unidos na luta contra o inimigo infernal, luta essa que, como foi pré-anunciada no Protoevangelho, havia de terminar na vitória completa sobre o pecado e a morte, que o Apóstolo das gentes sempre associara nos seus escritos. Assim, o amor de Deus que não poupava o Filho, também não poupava a Mãe, e conduzia também a «serva» seguindo o Filho na amargura, infâmia, na vergonha. O Coração Imaculado sofria com O adorável Coração do seu Filho. E Jesus não mandou esculpir esta sua Paixão e morte em pedra ou madeira; os evangelistas descreveram-nas só com poucas palavras. Mas quis que Maria guardasse tudo no seu Coração; Ele confiou as Suas chagas, dores e súplicas ao Coração de Sua Mãe; ele depositou e guardou, e é este Coração que nos pode tudo transmitir; por isso, quem quer aprofundar-se nos sentimentos reparadores de Jesus, tem que procurar Sua Mãe.

Assim durante os séculos a Cristandade aprendeu da Mãe das Dores, como sofrer e como reparar com Jesus.

A restauração das forças resulta de uma dádiva, bebe numa fonte – o amor de Deus – que a mensagem de Fátima conclui nas aparições cordimarianas com a visão da graça e da misericórdia. Mas se há preocupação quer por parte dos profetas no Antigo Testamento quer por parte de Jesus nos evangelhos é a de não reduzir o reino à pura interioridade.

Na verdade, a palavra de Deus, a mensagem da salvação e a releitura profética desta história que é a mensagem de Fátima apresentam, como não poderia deixar de ser, uma incidência pública desta palavra. Dito de outro modo, a palavra de Deus não está destinada para ser apenas acolhida intimisticamente de maneira sentimental ou privada. Antes, ela apresenta consequências sociais e públicas reverberadas muito bem na Doutrina Social da Igreja. Do mesmo modo, a reparação não é uma questão privada da relação pessoal de fé, mas tem repercussão pública, necessariamente.

A privatização da fé a que a modernidade conduziu quis e quer reduzir a fé apenas a uma questão pessoal ou sentimental, extirpando-a da sua força política e social. Assim sendo, a reparação também passa pela reconstrução do tecido social e político. A reparação não se preocupa apenas em reparar, em restaurar a nossa relação de aliança com Deus, mas pretende também incidir na realidade humana de forma abrangente, pois por aí também passa o crivo da nossa relação a Deus.

Não é possível separar a reparação do mundo, pois é para o mundo que ela existe e é dirigida. Ao repararmos o mundo estamos e repor o projeto genesíaco dilacerado pelo pecado. Não podemos dissociar a relação com Deus da relação com os irmãos, pois uma não existe sem a outra. Nesta não dissociação há um trabalho de casa a fazer: é necessário parar para olhar, reparar, notar, observar, apontar para si para depois apontar para os outros. Reparar no olhar dos outros, reparar o olhar dos outros corrigindo-o fraternalmente abrange todas as dimensões da vida humana. Por isso, a reparação não se fica pela reposição de um bem material, mas vai até àquilo que é mais específico e humano da pessoa – a sua dignidade fundamental, o seu valor imaterial.

Estamos aqui no âmbito da (re)construção da civilização do amor, na edificação de um mundo melhor, pelo que não nos ficamos apenas pela recompensa a alguém quando se deu a lesão de algum bem material.

O que está em causa é o esforço de tentar compensar por um bem imaterial perdido, danificado, lesado, destruído, algo não mensurável. Esse bem imaterial (mas que depois se materializa) é o amor de Deus, é a beleza e a bondade de Deus. Como diz o nosso povo “amor com amor se paga”, linguagem que a tradição espiritual traduziu com a oferta do amor ao amor de Deus, a re damatio , um “weitergeben derselben Liebe”, uma (re)doação.

De facto, é a resposta resultante do amor primeiro de Deus que desde a criação viu que tudo era “tôb” em Gen 1, viu que tudo estava bem, era belo e bom. Estas três traduções são possíveis. Nesta perspetiva, «tornando-se intrinsecamente reparador, o amor integra todos os atos da vida cristã (e não só o domínio do sacrifício oferecido): se a sensualidade é reparada pela ascese, a blasfêmia é pelo louvor, a ingratidão pela ação de graças, a profanação pela adoração, o ateísmo pela confissão da fé… a reparação só é autêntica se incluir o serviço do pobre, o ecumenismo, o respeito pela vida, o combate pela justiça… coextensiva à história da Igreja, a praxis reparadora não é redutível a nenhuma das figuras contingentes na quais por vezes foi encerrada caricaturalmente».

O empenho por um mundo bom e belo desadamiza a condição humana para a tornar participante do projeto de Deus. É preciso então reparar nas fragilidades do nosso mundo para ajudar a “consertá-lo”, a repará-lo. Isto supõe um grande amor, tudo isto é feito no amor, com caridade para que a cidade dos Homens se vá tornando a cidade de Deus, para que a Babilônia de Ap 18 se vá esfumando na noiva do alto de Ap 21,9.

Por José Carlos Carvalho

Nem sempre é possível assumir ou descobrir esta consciência. Nesse momento é necessário assumir o lugar do pecador, perante Deus, pois quem perdoa e vive a fé em Deus sabe que quem não o faz está numa situação muito pior. Estabelece-se aqui um processo de substituição.

Nesse momento tentamos remediar o que o outro fez ou desfez, tentamos reparar os danos do pecado individual e social. Esta é a experiência de Jesus e dos servos de Javé no deutero-Isaías (cf. Lc 22,37; 1Ped 2,22-24). O servo de Javé coloca-se no lugar do povo pecador de Israel para realizar um resgate substitutivo transformando-se num “go’el”, naquele que resgata, isto é, naquele que repara na situação de pecado em que o povo vive e que por isso quer reparar a vida do seu povo, quer restaurar o seu próprio povo.

Este servo apresenta um interesse mais religioso por ouvir o convite de Deus (cf. Is 42,3.7; 50,4; 53,4-5), tenta eliminar o pecado carregando os pecados dos outros (53,4-5), interessa-se por que a salvação chegue a todos (49,6; 53,12). O servo de Is 49,3-4 espelha a fragilidade e os receios, pois ao servo a sua missão parece um fracasso. No entanto, é um sucesso para Deus.

Este servo já passa por uma agonia semelhante à de Jesus no Getsémani em Mc 14,33-36, faz aí a experiência da última porta que dá sentido – a fé, a confiança no Deus confiável, fiável, fiel, digno de fé, pois humanamente é uma missão impossível, sem sentido, sem nexo ou razão. Este servo não deixa de ser humano, que sofre diante do sofrimento, que não consegue explicar totalmente como Job e como Jesus (cf. Sl 22). Por isso, vêm os vv.5-6 como sinal de encorajamento, alargando o campo evangelizador. A missão do servo passa os limites geográficos da Palestina e de Israel e estende-se a todos os povos. Esta missão sem fim apresenta uma finalidade espiritual: levar à conversão sendo luz e salvação.

O servo está assim chamado a ser sacramento de Deus, sinal da misericórdia de Deus no meio de todo o mundo e da história dos Homens. O quarto canto de Is 52,13-53,12 desfaz a ambiguidade do terceiro canto, pois aqui o sofrimento é exaltação do servo, é riqueza para a multidão e justificação da multidão, o servo coloca-se substituindose no lugar dos pecadores. Isto é uma doutrina totalmente nova, incrível para Israel.

O servo repara-os. Perante este facto há que evitar dois extremos: dizer que isto é totalmente impossível (pois ao nível humano é de facto constatável um acrescento pelo sofrimento em nome dos outros, pelo sacrifício pelos outros), ou dizer que tudo é explicável, total e facilmente racionalizável. Note-se que o sofrimento do inocente permanecerá sempre enigmático como crítica à doutrina tradicional do princípio da retribuição proporcional (cf. Job, Qo).

A novidade deste canto é o triunfo do humilhado. Por outro lado, quem narra está de fora, do lado dos que assistem ao espetáculo, do lado dos que ultrajam. São eles que contam que a existência do sofredor é uma existência atormentada, dolorosa, mas também o é a existência dos próprios que atormentam, dos que fazem sofrer, pois reconhecem-no («os nossos delitos»: Is 53,5) e lamentam-se: «pelas suas chagas todos nós fomos curados» (Is 53,5). Este é o sentido e o alcance da primeira pessoa do plural.

Diante de tudo isto, não admira que esta figura tivesse sido relida logo à luz da Páscoa no credo da comunidade cristã primitiva (cf. 1Cor 11,23; 15,3-5). Por tudo isto podemos concluir que o servo refaz, restaura, repara, restitui os pecadores à aliança pela consciência do seu pecado. Como vítima inocente, o servo está onde os outros não sabem que estão nem o que fazem, e por isso o servo repara, sacrifica-se por eles, põe-se entre eles e Deus. Este quarto servo apresenta-se como um figura sacerdotal, sapiencial e profética, que pertence aos “anawîm”.

É um profeta que sofre na condição de mediador que dá a vida em favor da multidão e dos pecadores. Este servo continua a experiência dos enviados de Javé pois as provas afligem o enviado de Deus na execução da sua missão, à semelhança de Paulo que também experimenta uma agonia interna e externa (cf. 1Tes 2,4-9).

Todavia, emerge neste servo uma figura de ordem espiritual capaz de reconciliar o Homem com Deus, capaz de reparar uma relação de aliança destruída. Os que romperam a aliança não são capazes disso, precisam de alguém que interceda ou medeie.

Por Jose Carlos Carvalho

Há primeiro que ter em conta que as categorias de “consolação”, “reparação” e “perdão” aplicadas a Deus não atingem cada uma delas o mesmo grau nem a mesma aplicabilidade. Na sequência do que até agora vem sendo dito, a consolação de Deus é assim uma categoria com a qual traduzimos a ação benevolente pela qual o Pai do céu repara em nós, olha atenciosamente para nós, SE (pre)ocupa-Se connosco. Mas ela não se fica apenas como descendo dos céus, ela prolonga-se na terra. Com efeito, Deus consola para que consolemos, e podemos fazê-lo quer a Ele quer ao mundo. A consolação de Deus chega-nos no perdão quando somos perdoados, mas ela também advém ao mundo quando perdoamos o mundo, fazendo desse perdão um lugar ou tempo de consolação por onde se intui a consolação de Deus, por onde se abre o caminho da transcendência. Deus quando perdoa pretende restaurar a aliança. Quando perdoamos consolamos, aliviamos, damos conteúdo ao amor de Deus, aos seus gestos reparadores, restauradores, salvíficos.

O gesto gratuito do perdão de Deus é imerecido, fruto de uma misericórdia imotivada. Logo à par­tida, por isso é consolador, é restaurador das forças e reparador da esperança. É a tradução do Deus amor em si mesmo consolação ao Filho no Espírito. Na mensagem de Fátima encontramos várias vezes o convite para consolarmos a nosso Senhor porque é terrivelmente ofendido pelos nossos pecados. O ato de consolar (na altura das aparições traduzido com a linguagem do desagravo) surge na mensagem de Fátima muito direcionado para Deus, sendo aí Deus objeto e não sujeito da consolação. Ora, Deus é con­solável mas não reparável, pois não precisa de reparação em Si se entendermos aqui a reparação como o processo de reconstrução de algo que ficou diminuído ou que foi destruído. Por isso, «o mistério da reparação toca a essência da cristologia. Enfrenta os problemas nevrálgicos do sofrimento de Deus e da consciência do Cristo…»21. O nosso Deus não fica indiferente, podemos consolar a Deus. A única e substancial diferença é que Deus não precisa de ser perdoado. No entanto, a consolação de Deus não se restringe apenas ao perdão que nos concede. A consolação de Deus no perdão também vai no perdão aos irmãos e ao mundo, ou visto de outro ângulo, o perdão aos irmãos e ao mundo transporta a consolação de Deus, sacramentaliza a misericórdia imotivada de Deus. Por aí também Deus repara as contas da história. Isto faz da reparação um ato não intimista ou individualista. É sempre um ato pes­soal. Quando perdoamos, quando somos sujeitos do perdão estamos a encarnar o projeto do reino, estamos a consolar porque fomos consolados. Nesses momentos, pelo perdão abrimos novamente a porta da aliança, reparamos a relação rompida, e nesse sentido reparamos, restauramos. É o mesmo que Deus faz a cada um de nós quando nos perdoa. Essa é uma experiência de graça, gratificante consoladora. Quando os irmãos recebem o nosso perdão ficam consolados, aliviados, fazem uma experiência gratificante, aproximam-se da graça. Assim, a consolação de Deus chega e parte no perdão, repara a nossa relação com Ele e com o mundo. No perdão somos reabilitados por Deus e o mundo é reabilitado pelo nosso perdão para se aproximar da experiência da graça e da transcendência.

Por José Carlos Carvalho

Na mensagem de Fátima a temática da reparação surge preferencialmente como a consolação a Deus e não tanto como a consolação de Deus. Trata-se de traduzir, na primeira acepção, o contribu­to que o mundo da credulidade pode dar à consolação para o próprio Deus e para o mundo, sendo este mundo na mensagem de Fátima quer o mundo presente quer o mundo post mortem. Com efeito, é comum nas aparições ver Nossa Senhora pedir a reparação dos pecados cometidos contra o seu Imaculado Coração ou contra o próprio Senhor Jesus. Para atenuar este sofrimento infligido quer à Mãe do céu quer ao Seu Filho, Nossa Senhora propõe a oração e outras práticas pedagógicas como a consagração dos primeiros sábados, a adoração eucarística ou a recitação do rosário.

É fre­quente na mensagem de Fátima encontrarmos o convite para atenuarmos o sofrimento de Deus e do seu Filho Jesus. Para tal, a mensagem de Fátima propõe que façamos memória do sofrimento do mundo. Rezar pelas almas dos pobres pecadores é um remédio para atenuar as suas penas no purgatório, assim se exprime a linguagem tradicional e da época das aparições. Isto significa que a comunhão dos santos é efetiva, ela prolonga-se para lá da morte. A nossa oração tem, por isso, grande valor, na medida em que pede a intercessão pelos pecadores para que sejam consolados e descubram a beleza da fé e da vida em Cristo. Isto é tornar a reparação orante, neste caso, um ca­minho de consolo.

Esta troca inspira-se na ação benevolente de Deus segundo 2Cor 5,21, onde Paulo ensina que Deus colocou o Seu Filho reparador (conciliador e salvador) como pecado no lugar dos irreparáveis (dos pecadores) não sendo pecador. Ao fazer isto, Cristo torna-se para o mundo o grande consolo na me­dida em que nos repara, reconstrói, reconcilia, em suma, nos salva, tira-nos de onde não consegui­mos sair por nós mesmos devido ao nosso pecado. Permitindo que participemos na sua vida, Cristo consola-nos. Tal acontece por seu mérito, por graça. É espiritual e humanamente gratificante a consciência deste dom. Dar-nos o que por nós não conseguimos alcançar é consolador. Essa dádiva é uma reparação. Cristo reparou e repara sempre em nós. Isso é consolador. Por isso, a reparação (a dádiva da vida, da fé, da graça, da solidariedade) é em primeiro lugar um consolo para o próprio como também uma graça para os que são objeto dessa dádiva.

Ao realizar o que o outro por si só não consegue mas deseja, isso é consolador, gratificante. Na verdade, a consolação não acontece apenas para aquele que é consolado, para aquele que é objeto de reparo (sobre o qual se olha com um olhar de benevolência). Antes, a consolação começa no consolador(a), no reparador(a). Nesse momento descobre que saiu do círculo da violência, está acima dos acontecimentos e compreende verdadeiramente quem sofre ao ponto de um amor maior. Neste sentido, quem repara em quem sofre, quem repara por quem sofre ama, e ao amar consola. O amor do amante recai sobre o ama­do.

A consolação de quem repara, de quem tenta ou consegue refazer as contas da história atinge/recai sobre quem é amado, sobre quem é reparado, sobre quem se faz parar o olhar de misericórdia, o que faz da reparação um caminho de consolação quer sobre quem é consolado quer sobre quem consola, sobre quem é reparado e sobre quem repara, sobre quem é amado e sobre quem ama, pois quem dá recebe ainda mais tal como promete o evangelho (cf. Mc 10,29-30).

Por José Carlos Carvalho

Amar ao ponto de refazer o que foi destruído pelo nosso pecado, quando é reparável, é um ato de amor, de grande humildade e de esperança. Interessa-nos aqui sobretudo o primeiro e o último aspecto. O esforço por tentar consertar o que se estragou nas várias valências da vida humana apon­tadas pelos mandamentos é sinal de esperança numa outra maneira de estar no meio do mundo e de orientar por outros valores que não nos façam propender para o mal. Já o querer não ficar apenas a olhar para o passado e para o pecado que se cometeu, tentando seguir outros caminhos, é um sinal de esperança e de capacidade de luta. Este esforço de reparar o mal cometido ou infligido é um sinal de capacidade de luta contra o mal, dá mostras de que não nos resignamos e encontramos o mundo sempre como lugar de esperança. Esta é a atitude específica da fé cristã, que como fé que é confia no real e encontra o mundo como lugar da esperança, nunca vergado inexoravelmente ao mal, à força do mal para o qual, sabemos, propendemos ao ponto de não fazermos o bem que queremos mas o mal que não desejamos. Apesar desta maldição (Rom 7,24), querer reparar o mal é já sinal de capaci­dade de resistência face ao mal, de que é possível resistir ao mal nos seus efeitos fisiológicos (Übel), na sua malvadez dos malefícios que provoca (Schlecht) e na sua perturbação da ordem moral (das Böse). Reparar o mal significa que ele não é a última palavra da vida humana, que Deus é mais forte do que ele. Resistir-lhe descobre-nos um olhar positivo sobre a vida, pois abre o horizonte para lá do imediato, ao horizonte escatológico, à surpresa, à esperança, à novidade. É um sinal de saúde e de confiança. Reparar o mal só o consegue quem está acima do mal, quem não tem uma visão ma­niqueia ou gnóstica do mundo, quem faz o seu olhar parar em Deus, quem repara n’Ele, quem olha para Ele, quem tem como eixo orientador a transcendência, pois só essa liberta das contingências da história, transcende os nossos limites, transcende o mal, e por isso nos torna livres, não aprisionados. Os maus, as maldades, as coisas más então não nos afogam. Existe sempre algo mais e melhor, nun­ca nos damos por satisfeitos pelo que já temos ou pelo que já somos, pois ainda não está bem.

Texto – José Carlos Carvalho

Como poderá o perdão traduzir a reparação? Que tem uma realidade que ver com a outra? Mais uma vez, poderemos olhar esta relação nas duas direções que a compõem, e igualmente nos atores. Se reparar supõe parar para refazer algo que foi desfeito, a reparação então começa no reparado enquanto reparador. Tenho de parar para olhar para mim mesmo, para reparar em mim. Só nessa altura estarei disposto e aberto ao olhar do Outro que desde sempre repara em mim e me quer reparar. Neste contexto é possível então falar de duas direções no processo de reparação, como foi afirmado, o que pressupõe dois pontos de partida: um de nós para Deus e outro de Deus para nós. No fundo, reabilitamos aqui todo o processo de mediação sacerdotal no Antigo Testamento e na vida cristã.

O mediador é aquele que está no meio, que leva o mundo até Deus e que traz Deus para habitar o mundo. Nestas duas direções podemos parar para olhar para Deus ou contemplar a paragem de Deus que olha, que repara em nós para reparar a nossa vida com a sua graça. Nestas duas direções é delineado um percurso de reconhecimento do pecado como condição de perdão, porque ao reparar na nossa condição de pecado abro caminho para a reparação do mesmo através do perdão. Nesse momento desejo buscar um perdão que é constante e que repara a minha relação ao mundo e a Deus. Sendo assim, também podemos então contemplar o perdão de Deus sempre prévio ao pecador para o reparar, para o reconstruir, pelo que podemos aí contemplar essa mesma condição que repara o meu pecado. Desta forma poderemos falar em duas direções delineadas neste percurso de reconhecimento: uma de nós que se inicia quando nos damos conta do nosso pecado, e outra da parte de Deus que desde sempre (re)conhece que somos pecadores e indigentes da sua misericórdia que repara o nosso pecado.

Nestas duas direções, para ser reparado, para ser notado por Deus tenho de deixar que Ele me repare, é necessário reconhecer o mal cometido para, com essa consciência, construir um caminho outro. Isto supõe a anuência da liberdade, o consentimento, o reconhecimento da nossa condição de pecadores. Só então o perdão de Deus será reparador, isto é, eficaz pois ao perdoar, ao dar por esse gesto de graça (gratuito) a sua graça e uma nova chance, está a reparar uma relação dilacerada, pelo que em última instância o Reparador acaba por ser Aquele que inicia e conclui o processo. Nós continuamos no meio como mediadores, e Deus só pode perdoar se efetivamente vir que nos arrependemos e que queremos mudar de vida, refazer as contas da história, recompor o que destruímos. É o que acontece também com os sacramentos que só são eficazes se não impusermos óbice, se a nossa liberdade consentir. Sem mostrarmos que queremos reconstruir o que desfizemos não há perdão eficaz. Ele existe em Deus mas a nossa liberdade impede-o de se tornar eficaz, é contumaz quando quer deixar tudo como estava antes. Este processo que acontece na relação cristã entre o crente e Deus replica-se na relação fraterna e replica-se agora na reciprocidade das direções das relações interpessoais, pois se existe a violação de um dos mandamentos da lei de Deus, sobretudo a partir do quarto, só conseguimos manter a relação com base na confiança e na gratuidade. Isto acontece mesmo ao nível social. O mundo só funciona por causa da gratuidade nossa e de todos, que permanentemente está a “olear a máquina”, a reparar os atropelos e as injustiças.

Para que a sociedade sobreviva é necessário o perdão para reparar as relações interpessoais, o que faz então com que o reconhecimento da necessidade de reparação seja a condição para o perdão e para a própria sobrevivência. Individual, comunitária e socialmente é necessário refazer o que foi desfeito, é necessária a reparação do pecado cometido para que aconteça o perdão e para que consigamos continuar a viver em sociedade, não na base da violência e da competição como pensaram os ideólogos do estado moderno como Hobbes (1588-1679). Esta é a condição de perdão, perdão que permanece sempre gratuito, mas que como gratuito que é precisa sempre do consentimento da liberdade. Isto abre sempre então o lugar à esperança, e deixa o futuro nas nossas mãos. Podemos mudar o caminho dos acontecimentos, o que torna a vida muito mais bela e livre, pois não há fatalismos nem destinos, mas graça e liberdade. Este é o jogo da vida, e este jogo torna a vida humana sempre reparável e sempre perdoável, primeiro por Deus e depois pelos irmãos.

Texto – José Carlos Carvalho