Cordeiro de Deus é o título que João Batista dá a Jesus quando o vê aproximar-se e proclama: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (Jo 1,29). Essa expressão atravessa toda a Bíblia e revela algo profundo sobre o amor de Deus e a salvação.
Quando João Batista aponta para Jesus e proclama: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (Jo 1,29), ele não está falando das doenças do corpo ou das fragilidades humanas; está falando do pecado, que a tradição bíblica entende como a verdadeira doença da alma — aquilo que rompe a relação entre o ser humano e Deus.
Para entender por que Jesus é chamado de Cordeiro de Deus, precisamos voltar um pouco na história da fé de Israel. Só assim perceberemos a profundidade dessa imagem que atravessa toda a Bíblia e chega ao centro da vida cristã.
O primeiro e o melhor pertencem a Deus
Na Bíblia, encontramos antigas leis religiosas conhecidas como Código da Aliança, preservadas no livro do Êxodo (cf. Ex 22,28-29; 23,15-19).
Esses textos dizem algo muito significativo: os primogênitos — os primeiros filhos e os primeiros animais do rebanho — pertencem a Deus. O mesmo acontecia com as primícias, isto é, os primeiros frutos da colheita: o primeiro trigo, o primeiro azeite, o primeiro vinho.
Por trás dessas práticas existe uma realidade espiritual muito profunda: Deus tem a primazia sobre todas as coisas.
Ao oferecer as primícias, o povo reconhecia algo essencial: Deus é o Senhor. Tudo vem d’Ele e tudo pertence a Ele.
Por isso a comunidade tem como prioridade viver e comunicar aquilo que está no centro da nossa vida: a prevalência de Deus — “Deus em primeiro lugar”, sempre e em tudo na nossa vida (ND 419).
E é exatamente essa lógica do Reino dos Céus — colocar Deus no centro de tudo — que também ajuda a compreender o sentido dos sacrifícios na história do povo de Deus.
O primogênito não era sacrificado
Para nós, hoje, pode parecer estranho, mas, no mundo antigo, muitos povos sacrificavam seus filhos primogênitos às divindades pagãs.
Com o povo de Deus é diferente. Os primogênitos não eram sacrificados. Eles eram resgatados por meio de um sacrifício. Em vez da vida da criança, oferecia-se um animal.
Esse gesto ensinava duas verdades ao mesmo tempo:
- a vida pertence a Deus
- Deus não deseja a morte humana
O sistema de sacrifícios de Israel
Ao longo da história de Israel, o culto religioso passou a incluir diferentes tipos de sacrifícios.
E esses sacrifícios podiam ser:
Sacrifícios particulares
oferecidos por famílias ou indivíduos.
Sacrifícios públicos
realizados em nome de todo o povo.
Também havia diferentes intenções espirituais.
Sacrifícios pelos pecados
Quando alguém cometia um pecado — especialmente por fraqueza ou sem perceber —, podia oferecer um sacrifício de reparação. Na tradição dos povos antigos, o sangue representava a vida. Por isso era considerado sagrado.
Esse gesto simbolizava algo profundo: a vida oferecida a Deus traz reconciliação.
O amor que entrega o Filho para nos resgatar
É nesse contexto que as palavras de Jesus ganham um significado ainda mais profundo:
“Assim Deus amou o mundo, que lhe deu seu Filho unigênito” (Jo 3,16).
Essa pequena palavra — assim — carrega um mistério insondável. Ela mostra que jamais conseguiremos compreender completamente o impulso do amor que levou Deus a enviar seu Filho para morrer, a fim de resgatar os filhos que estavam condenados a morte pelo pecado.
O Pai deu o Seu Filho Unigênito em sacrifício para nos resgatar.
O sangue que salva
A Carta aos Hebreus explica essa realidade de forma direta:
“Nem com o sangue dos bodes ou de novilhos, mas com o próprio sangue entrou no santuário uma vez, obtendo uma redenção eterna” (Hb 9,12).
O sangue de animais jamais poderia nos resgatar da morte eterna da qual estávamos condenados pelo pecado.
Só o sangue daquele que é ao mesmo tempo Homem e Deus poderia pagar o nosso resgate e nos salvar da morte.
Mas, o sacrifício não é maior que o Amor.
Foi o Amor que desejou isso.
Foi o Amor que realizou isso.
Por isso Jó pergunta com admiração:
“Que é o ser humano, para dar-lhe tanta importância? Por que se ocupa dele o teu coração?” (Jó 7,17).
O Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo
O profeta Isaías já tinha anunciado esse mistério:
“Como um cordeiro que é levado ao matadouro ou como evelha, que emudece diante do tosquiador, ele não abriu a boca” (Is 53,7).
Jesus é anunciado por João Batista como o Cordeiro de Deus, porque, foi assim como o cordeiro que Ele foi oferecido em sacrifício.
Como diz o profeta:
“Ele assumiu as nossas fraquezas e as nossas dores ele as suportou.” (Is 53,4).
Canção Nova: casa do sacrifício
“Meus olhos estarão abertos e os ouvidos atentos à oração feita neste lugar. Pois agora escolhi e santifiquei esta casa dedicada ao meu nome para sempre. Meus olhos e meu coração estarão nela todo o tempo.” (2Cr 7,15-16)
Quando Salomão termina a construção do Templo e se prepara para inaugurá-lo, consagrando-o ao Senhor, naquela noite Deus lhe aparece e diz:
“Ouvi tua oração e escolhi este lugar como casa para receber os sacrifícios” (v. 12).
Assim como naquele tempo, o povo oferecia muitos sacrifícios a Deus, hoje, porém, reconhecemos que existe um único sacrifício: o sacrifício de Jesus na cruz e tornado presente em cada Santa Missa.
Mas esse mistério também toca a nossa própria vida. Ele fala dos nossos sacrifícios, das nossas dores e de todos os sofrimentos que muitas vezes a própria missão nos traz. Seguir Jesus nos leva, mais cedo ou mais tarde, a um amor igual ao Dele: um Amor sacrificial.
Por isso Padre Jonas nos ensinava que somos chamados a viver a alegria no sofrimento. Somos convidados a acolher, de coração aberto e com esperança, os sofrimentos que nos atingem, sabendo que eles fazem parte do caminho da missão. Eles fazem parte do sacrifício que nós oferecemos em resgate das almas dos nossos irmãos.
Como ele mesmo dizia:
“Nós sofremos por aqueles a quem somos enviados, para que a graça os atinja com os frutos da redenção de Cristo.” (ND 1096)
Assim Deus nos conduz a viver aquilo que São Paulo expressa como experiência pessoal:
“Alegro-me nos sofrimentos que tenho suportado por vós e completo, na minha carne, o que falta às tribulações de Cristo em favor do seu Corpo que é a Igreja.” (Cl 1,24)
Nossa vida de consagrados ao Senhor comporta o Amor sacrificial, que não só se doa por Amor, mas vive tudo por Amor, até mesmo as dores e sofrimentos vividos por causa do Evangelho.
Chamado para viver este amor e sacrifício
Estamos entrando na semana mais importante da nossa fé.
A Semana Santa é a semana mais forte do ano inteiro. O Cordeiro de Deus foi sacrificado por amor. Diante desse amor nasce também um chamado porque Amor com amor se paga. Não há outra forma de responder ao Amor.
Talvez esta seja a semana para escutar o coração de Deus, experimentar esse amor e responder.
O sangue do Cordeiro de Deus clama por ti.
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Graziele R. Lacquaneti é missionária da Comunidade Canção Nova há mais de 30 anos, celibatária consagrada e formada em Comunicação Social, com habilitação em Publicidade e Propaganda. Atualmente é pós-graduanda em Sagradas Escrituras e coordena o setor de Produção Digital de Conteúdos Formativos da Comunidade Canção Nova, atuando na evangelização e formação cristã por meio das mídias digitais.


