Ser profeta significa permitir que Deus fale através da nossa vida e entre na história humana. É assim que Deus continua intervindo a história: através de pessoas que escutam a sua Palavra, deixam-se transformar por ela e vivem a missão de ser profetas no mundo.
Ser profeta: Deus fala através de pessoas e entra na história.
A comunicação humana é apenas troca de informação?
Ou pode ser também um lugar onde Deus nos encontra?
Essa pergunta nos conduz a uma reflexão mais profunda sobre a própria linguagem. Se a comunicação for vista apenas como um instrumento para transmitir informações, então parecerá que Deus fala apenas para nos dizer coisas ou revelar verdades e que o ser humano responde a elas apenas com a razão.
Mas a Sagrada Escritura revela algo muito mais profundo: quando Deus fala, Ele não apenas informa. Ele cria, chama, conduz e entra na nossa história.
A Palavra de Deus que cria e age na história
É isso que a Palavra de Deus nos ensina já no início do Evangelho de João:
“No princípio era o Verbo” (Jo 1,1).
Essa afirmação remete ao primeiro capítulo do Gênesis, onde vemos que Deus age por meio da sua Palavra:
“Deus disse: ‘Faça-se…’ e assim aconteceu” (cf. Gn 1,1-3).
Toda a Escritura ecoa essa verdade. O Salmo 33 proclama:
“Pela palavra do Senhor foram feitos os céus” (Sl 33,6).
E o livro do Eclesiástico reafirma:
“Pela palavra do Senhor foram feitas as suas obras” (cf. Eclo/Sir 42,15).
Se pararmos para pensar, existem duas formas de realizar algo: pela ação direta ou pela palavra. Podemos fazer as coisas com um trabalho artesanal e pessoal, ou fazê-las por meio da palavra — dando ordens, instruções, pedidos ou sugestões.
Nesse caso, as coisas acontecem através da palavra.
É exatamente assim que a criação é apresentada na Bíblia. Deus aparece como o artesão que preenche os dias da criação com sua ação, mas também como o Senhor cuja palavra tem autoridade e é obedecida.
Sua palavra é um comando ao qual nem o caos nem o nada podem resistir:
“Deus disse: ‘Haja luz’. E a luz existiu” (Gn 1,3).
A Palavra de Deus e a liberdade humana
Mas o que isso revela, de forma prática, para nós?
Deus criou o ser humano livre:
“Ele o entregou ao poder de sua própria vontade” (Sir 15,14).
Isso significa que o ser humano se torna responsável por suas próprias ações. A história, portanto, é também uma grande ação da humanidade.
No entanto, Deus não é indiferente aos acontecimentos da história. Ele continua agindo nela. Porém, não o faz anulando ou reprimindo a nossa liberdade.
Deus age agora em união com a nossa liberdade.
E o meio que Ele utiliza para nos atrair é a sua Palavra.
Quando Deus fala conosco, Ele nos procura. Ele poderia ter escolhido meios mais diretos ou impressionantes: uma intervenção avassaladora no interior do homem ou um êxtase que absorvesse completamente a pessoa.
Mas isso retiraria o homem da responsabilidade sob à sua própria história.
Por isso, Deus fala e, por meio de homens no meio do seu povo, Ele nos busca.
É assim que surge o profeta.
O profeta: a Palavra de Deus entra na história
Deus se manifesta de muitas maneiras na história: senta-se como um rei para dar ordens, levanta-se como um juiz para proferir julgamento, inclina-se para aconselhar e até se curva para implorar.
É nesse contexto que aparecem os profetas.
Eles são os mensageiros da Palavra de Deus na história e para a construção da história.
Como diz a Escritura:
“O coração do rei é como um curso de água nas mãos do Senhor; ele o dirige para onde quer” (Pr 21,1).
Deus conduz a história de dentro, a partir do coração humano. O rei não é um fantoche movido por Deus com cordas invisíveis. Para alcançar o coração, Deus utiliza a palavra profética.
Esse também foi o propósito de Deus ao suscitar a Canção Nova como uma família eclesial que reúne diversos estados de vida: casais, sacerdotes, diáconos, celibatários e solteiros, todos entregues a Deus no serviço da evangelização.
Essa é a palavra profética que oferecemos à Igreja e ao mundo neste momento da história.
Como ensina Pe. Jonas:
“Somos chamados a uma nova maneira de viver a vida consagrada: voltar aos conselhos evangélicos na sua originalidade, livres das estruturas que foram se criando ao longo do tempo. Somos chamados a assumir o Evangelho como nossa regra de vida” (ND 1480).
Assim, profetizamos com a própria vida.
A força de Deus na fraqueza da palavra
À primeira vista, nada parece mais frágil do que a palavra.
Ela é apenas um som que vibra no ar, limitado pela distância, preso às fronteiras das línguas, breve e sujeito a inúmeras interferências.
Também é frágil por causa de quem a pronuncia. Quem fala muitas vezes não possui riquezas para dar autoridade às suas palavras, nem exércitos para sustentá-las, nem tribunais para impô-las.
E, acima de tudo, a palavra é dirigida a corações humanos que podem ser distraídos, teimosos, fechados ou medrosos.
Quem deve pronunciá-la pode fugir — como Jonas — ou permanecer em silêncio — como Jeremias. E quem deveria escutá-la pode simplesmente fechar os ouvidos ou endurecer o coração.
No momento em que é pronunciada, a palavra parece desaparecer.
Essa fragilidade pertence à própria condição humana da palavra. Por isso, quando a Palavra de Deus assumiu forma humana, ela também se tornou aparentemente fraca.
No entanto, a Escritura afirma:
“A relva seca, a flor murcha, mas a palavra do nosso Deus permanece para sempre” (Is 40,8).
Quando a Palavra de Deus entra na linguagem humana, ela assume a fragilidade da carne porque “toda carne é como a relva” (cf. Is 40,6).
E mesmo que o Seu autor seja o Senhor dos Exércitos, ainda assim, a palavra que Ele dirige aos homens através de outros homens permanece, à primeira vista, frágil.
Mas é exatamente nessa fraqueza que Deus manifesta a sua força.
Como?
Engajando a liberdade humana.
Quando a palavra profética é pronunciada e escutada, ela entra na história e passa a agir dentro dela. A partir desse momento, já não pode ser apagada.
O profeta em constante restauração
É por isso que o profeta vive em constante restauração.
Pe. Jonas ensina que “a segunda prioridade da Canção Nova é a Formação. A comunidade foi criada por Deus para formar homens e mulheres novos para o Mundo Novo. Por isso vivemos em formação permanente e, ao mesmo tempo, tornamo-nos formadores uns dos outros” (ND 421).
Diante disso, surgem perguntas importantes quando acompanhamos alguém que deseja trilhar o caminho vocacional:
– Ele é sensível à necessidade de se formar?
– Faz-se acompanhar por alguém?
– Tem buscado ajuda?
– Tem buscado a própria restauração?
– Está entrando na cura da sua história pessoal?
– Está levando a sério a sua conversão e transformação?
– Assume como responsabilidade pessoal a busca da santidade?
Por isso, a palavra profética pode parecer frágil mas, torna-se força transformadora dos corações que se deixam moldar por ela.
E é assim que Deus continua agindo na história: através de pessoas que escutam a sua Palavra, deixam-se transformar por ela e a tornam visível na própria vida.
Quando a Palavra de Deus encontra um coração dócil que se deixar formar por ela, deixa de ser apenas palavra e se torna uma nova história, um homem novo.
Campanha Vocacional 2026–2027
Preparai o Caminho do Senhor
João preparou a Primeira Vinda.
A Canção Nova existe para preparar a Segunda.
Essa voz ainda ecoa.
Vamos juntos preparar o caminho do Senhor?
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Graziele R. Lacquaneti é missionária da Comunidade Canção Nova há mais de 30 anos, celibatária consagrada e formada em Comunicação Social, com habilitação em Publicidade



