Vocação não é fuga da realidade

Negar a realidade em vista “da vocação” é fuga e não chamado.

A vocação é um convite, uma proposta à liberdade e responsabilidade do homem, à qual ele pode aderir ou não, mas não está em sua mão criá-la. É um chamado que se faz ao homem, no lugar onde ele está, fazendo o que estiver fazendo e a este apenas resta  atender ou não.O autor espanhol Julían Marías diz que “a vocação também não é escolhida, porém não seria correto dizer que me encontro com ela; antes ela me encontra, me chama, e correlativamente a descubro; não me é imposta, e sim apresentada, e embora não esteja em minhas mãos ter ou não ter essa vocação, permaneço frente a ela com uma essencial liberdade: posso segui-la ou não, ser fiel ou infiel a ela.” ¹

Diante da vocação há o encontro, ela me encontra na realidade, ela vem até mim me questionando, é o vocare! Chamado. Não há negação do que faço ou o que sou, ela apela para que eu faça o que eu preciso fazer que eu seja o que eu sou requerido a fazer. Negar a realidade em vista “da vocação” é fuga e não chamado. Com isso não quero dizer que precisamos ficar na mesma realidade, mas é o contrário, pega a realidade que tenho é com ela e nela dou o meu sim. E este sim muitas vezes implicará o deixar algo.

Foto de Oziel Gómez no Pexels

Ser fiel a própria vida é ser fiel a sua vocação

Eu sou eu e minhas circunstâncias, e as circunstâncias da vida de uma pessoa não passam por uma escolha, não são decisões suas o lugar ou época em que nasceu, sua família, características físicas, etc… Estas circunstâncias são impostas e é a partir delas que sua vida será configurada; porém, a escolha ou decisão humana incide no modo, no ‘como’ vai construir sua história, na maneira particular, pessoal de se relacionar com o que lhe foi dado. Aqui se insere seu chamado vocacional, é com tudo isso que Deus te chama! 

Não tem como negar estas circunstâncias para dar um sim ao chamado Divino. “O que se escolhe na vida é algo diferente: não o que se é, e sim quem se vai ser. Há que se precisar um pouco mais: não escolho quem tenho que ser e sim quem é de que maneira vou ser; em outras palavras, qual vai ser a trajetória efetiva de minha vida, na medida em que permite a circunstância.”²

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O melhor caminho para um bom discernimento vocacional é esta instalação na própria realidade de vida, assumir seu lugar na família, na paróquia, na sociedade. É nesta instalação com suas circunstâncias próprias que a vocação autêntica vai sendo discernida. Não podemos fugir delas, elas são constituintes de nosso sim ao chamado Divino. Ser fiel a própria vida é ser fiel a sua vocação.

 

Adriano Gonçalves

Comunidade Canção Nova

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¹MARÍAS, Julián. Ortega: las trayectorias. Madrid, Alianza Editorial, 1983. pg. 24

² Idem