Isolamento social sim; mas de Deus nunca!

“Estar em isolamento social não significa isolamento de Deus”

Como você tem vivido esse tempo de quarentena? O isolamento social tem causado quais impactos em seu dia-dia? Fato é que todos nós somos afetados de alguma forma por essa realidade. Prova disso, na dimensão religiosa,  é a diferença com que viveremos a celebração do Tríduo pascal neste ano uma vez que não poderemos ir às Igrejas. Porém o fato de não ir à Igreja e estar em isolamento social não significa isolamento de Deus. Aliás foi justamente para que o homem não viva isolado de Deus que Jesus submeteu-se a uma solidão dolorosa.

Para adentrar nesse mistério da solidão de Jesus olhemos para o início do Tríduo Pascal: ele se inicia com a missa vespertina “in Cena Domini”, missa da ceia do Senhor. Nesta liturgia celebramos a instituição do sacerdócio e a oferta total que Cristo fez de Si na Eucaristia. Na riqueza de tudo que se celebra na quinta feira Santa gostaria de chamar atenção para o fato de que este dia encerra-se com a Adoração Eucarística, em recordação da agonia do Senhor no Getsêmani que foi o momento  do abandono e da solidão de Jesus¹ (cf. Mt 26,36-46) . 

Foto: Cena do Filme “A Paixão de Cristo”

A consequência do pecado é o distanciamento de Deus

“Levando Pedro e os dois filhos de Zebedeu, começou a entristecer-se e a angustiar-se. Disse-lhes, então: minha alma está triste até a morte. Permanecei aqui e vigiai comigo” (Mt 26,38).  No Getsêmani percebemos em Jesus um homem angustiado que busca companhia e por isso ele levou Pedro, Tiago e João mas o sono dos três íntimos amigos o faz sentir ainda mais solidão (cf. Mt 26,40). Por que essa solidão de Jesus foi tão dolorosa ao ponto do evangelista Lucas detalhar que seu suor “se tornou semelhante a espessas gotas de sangue” (Lc 22,43)?  O motivo de tamanha angústia se dá pelo fato que em sua paixão Jesus assumia os pecados da humanidade e a consequência do pecado é o distanciamento de Deus. Sobre isso Raniero Cantalamessa diz: 

Os gestos de Jesus no horto são de um homem sobressalto de uma angústia mortal: “ajoelhou-se”; “caiu por terra de bruços”; “levantou-se para ir aos seus”; “voltou para orar”[…]. Essa angústia não foi causada pela simples previsão dos tormentos iminentes […]. O tormento de Jesus mostra-se causado por dois fatos entre si interdependentes: a proximidade do pecado e a distância de Deus[…]. Tal proximidade do pecado provoca como consequência o distanciamento de Deus ou mais precisamente o afastar-se de Deus; o vê-lo ir-se embora, desaparecer e não mais responder. O grito Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes? (Mt 27,46) Jesus o trazia no coração desde o Getsêmani²

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Em sua solidão Jesus assumiu nossa solidão

Dessa forma a solidão de Jesus no mostra o peso da pior das solidões que é a solidão de Deus causada pelo pecado. Mais que isso, em sua solidão Jesus assumiu nossa solidão ao ponto de sentir o abandono de Deus e bradar na cruz “meu Deus, meu Deus, por que Me abandonastes” (Mt 27,46; Mc 15,34). Assim, nesse brado Jesus “leva perante o coração do próprio Deus o brado de angústia do mundo atormentado pela ausência de Deus”³. Portanto a você que vive a solidão da quarentena fica o belo ensinamento que a solidão de Jesus no Getsêmani e na cruz nos dá: nesse tempo de quarentena isolamento social sim; mas de Deus nunca!

 

 


¹Cf. Bento XVI, audiência geral 12/04/2006. Disponível em: http://w ww.vatican.va/content/benedict-xvi/pt/audiences/2006/documents/hf_ben-xvi_aud_20060412.html 
² Cf. Raniero CANTALAMESSA, o mistério da páscoa, p. 34-35, Editora Santuário: Aparecida SP, 1993.
³ Joseph RATZINGER, Jesus de Nazaré: da entrada em Jerusalém até a Ressurreição, p. 195, Editora Planeta: São Paulo, 2011.