Descubra como os valores familiares podem nos tornar mais humanos e sociáveis
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No dia 04 de janeiro de 2015, a 2ª fase da Fuvest (Fundação Universitária para o Vestibular) pediu aos candidatos que elaborassem uma dissertação discutindo a “camarotização” da sociedade brasileira, a segregação das classes sociais e a democracia. Achei a proposta interessante e resolvi pesquisar um pouco mais sobre esse assunto e, principalmente, abordá-lo aqui numa perspectiva cristã. Afinal, o que é desagregação social? Qual o sentido de camarotizar um espaço público? Quais impactos desta tendência na sociedade?

Camarotização

O termo “camarotização da sociedade” é neologismo dado à tendencia a manter segregados dos diferentes estratos sociais. A partir do termo original “camarote” que também é utilizado para qualificar lugares, delimitando quem pode ou não pode adentrar. Em um evento, o camarote normalmente possui uma estrutura separada, onde é acolhido o público 1) classificado por seus organizadores como V.I.P. (da expressão inglesa Very Important Person que podemos traduzir literalmente para “pessoa muito importante”) ou 2) de pessoas que façam a opção por pagar pelo acesso específico para o camarote, normalmente mais caros que ingressos comuns. Os camarotes geralmente são ocupados por grupos com determinadas afinidades: como um grupo de amigos ou familiares, ou por um grande conjunto de pessoas sem nenhuma relação mas que igualmente optaram por “ingressos” de camarote. Assim, um camarote mais que um lugar físico pode ser entendido também como um conceito abstrato de separação social. Outro significado de camarote é o nome dado ao compartimento com camas (ou quartos), localizados em navios, destinado aos passageiros ou à tripulação.

Segundo Michael Sandel, que é filósofo e professor na Universidade de Harvard, as “elites parecem desesperadas em não se misturar com os demais. Vida comum é saudável, e uma democracia vibrante precisa de lugares públicos que misturem diferentes classes. A camarotização é uma ameaça à democracia, ao espírito do bem comum. Os esportes costumavam ser essa arena. Mas a camarotização dos estádios tem repetido a segregação”.

Uma das possíveis causas desse fenômeno, seria o aumento das classe populares que, beneficiadas por programas de transferência de renda e maior acesso ao crédito, teriam passado a frequentar lugares antes restrito à elite. Tal elite, regida pela lógica de mercado, passou a sentir-se incomodada com a presença da “plebe” e desencadeou uma série de serviços premium como que passaportes para espaços privilegiados em, praticamente, todos os setores da sociedade: de agências bancárias, aeroportos ou filas em parques de diversões. Essa conduta, obviamente, não é uma novidade contemporânea e está associada à outras etapas da civilização. Mas, precisa mesmo ser assim? E a pobreza espiritual?

Desagregação Social

Em linha gerais, a palavra desagregar é o processo de decomposição de um corpo. Por exemplo, a desagregação de uma rocha ou a perda de unidade. A origem do termo “agregar” vem do latin grex (rebanho), gregis (ovelha) cujo sentido é juntar, arrebanhar. Neste sentido, a agregação é a ação e o efeito de agregar (o contrário chama-se des-agregação). Pode ser entendido também por desmebração, desunião, dissolução, fragmentação, secessão ou separação.

No campo da Psicologia, descobri que existe a desagregação psíquica ou desagregação da personalidade que é a incapacidade de harmonizar as funções psíquicas, intelectivas, emocionais e conativas, entre si e manter a sua síntese. Tal dissociação encontra-se na esquizofrenia. Pode chegar a uma diminuição progressiva global e irreversível, quantitativa e qualitativa, das funções mentais. Seu estado final é a demência.

Mas, o que pode provocar no ser humano essa inclinação de separar-se dos demais? Ainda que pareça uma “loucura”, o amor ao próximo só pode ser sustentado a partir do amor sincero que temos para com Deus. “Se alguém diz: ‘Eu amo a Deus, e odeia a seu irmão, é mentiroso’”, afirma João (evangelista) em sua primeira carta (cap4, v20).

Assim, numa perspectiva cristã, segundo o Compêndio da Doutrina Social da Igreja, a desagregação social (da família humana) é a conseqüência do pecado. “A conseqüência do pecado, enquanto ato de separação de Deus, é precisamente a alienação, isto é, a ruptura do homem não só com Deus, como também consigo mesmo, com os demais homens e com o mundo circunstante: a ruptura com Deus desemboca dramaticamente na divisão entre os irmãos.”

Amor se ensina amando. Assim, é no ambiente familiar, berço da vida e do amor, que o homem nasce e cresce: quando nasce uma criança é oferecido à sociedade o dom de uma nova pessoa. Todos somos chamados, desde o íntimo, à comunhão com os outros e à doação aos outros. Quem não aprendeu a ser sociável em casa, provavelmente tem atitudes antissociais na rua. Faz uma ideia de si muito superior aos demais e exala o orgulho por onde passa (ou como diz no gíria popular “a pessoa se acha”). Por isso, a comunidade familiar é tão importante, pois nela nasce a inclinação e o desejo de estabelecer comunhão com outras pessoas.

A [des]camarotização vem de berço!

Na Carta às Famílias (1994), São João Paulo II explicou que “A ‘comunhão’ diz respeito à relação pessoal entre o ‘eu’ e o ‘tu’. A ‘comunidade”’ pelo contrário, supera este esquema na direção de uma ‘sociedade’, de um ‘nós’. A família, comunidade de pessoas, é, pois, a primeira “sociedade” humana. Por isso, que mais que uma “utopia” a família que vive em harmonia (tanto os cônjuges, quanto os filhos) oferece à sociedade atitudes e comportamentos maduros. Sem famílias fortes, fundamentadas no matrimônio, sem a comunhão entre seus membros e sem um compromisso estável a humanidade fica debilitada.

Na família são inculcados desde os primeiros anos de vida os valores morais, transmite-se o patrimônio espiritual da comunidade religiosa e o cultural da nação. Nela se dá a aprendizagem das responsabilidades sociais e da solidariedade. Quem não aprendeu a somar em casa, exerce a divisão na rua: mais pra mim e menos, muito menos, para você.

Portanto, ao meu ver, a camarotização – como a desagregação social – não são somente fenômenos isolados de delimitação de espaços físicos em eventos ou áreas públicas, mas é sinal da falta de limites éticos, morais e cristãos que não foram oferecidos após às primeiras “birras” no chão do supermercado. De pais molengas (mal formados), nascem os filhos egoístas (deformados).

Que o amor de Jesus por nós, nos ensine também a amar os outros.

Cleber Rodrigues
Comunidade Canção Nova
 


 Nota: Veja a dica de São Tiago (cap 2, vers. 1 ao 10) para o fenômeno da camarotização nas Igrejas: “Meus irmãos, vocês que creem no nosso glorioso Senhor Jesus Cristo, nunca tratem as pessoas de modo diferente por causa da aparência delas. Por exemplo, entra na reunião de vocês um homem com anéis de ouro e bem vestido, e entra também outro, pobre e vestindo roupas velhas. Digamos que vocês tratam melhor o que está bem vestido e dizem: “Este é o melhor lugar; sente-se aqui”, mas dizem ao pobre: “Fique de pé” ou “Sente-se aí no chão, perto dos meus pés.” Nesse caso vocês estão fazendo diferença entre vocês mesmos e estão se baseando em maus motivos para julgar o valor dos outros. Escutem, meus queridos irmãos! Deus escolheu os pobres deste mundo para serem ricos na fé e para possuírem o Reino que ele prometeu aos que o amam. No entanto, vocês desprezam os pobres. Por acaso, não são os ricos que exploram vocês e os arrastam para serem julgados nos tribunais? São eles que falam mal do bom nome que Deus deu a vocês. Se vocês obedecerem à lei do Reino, estarão fazendo o que devem, pois nas Escrituras Sagradas está escrito: “Ame os outros como você ama a você mesmo.” Mas, se vocês tratam as pessoas pela aparência, estão pecando, e a lei os condena como culpados.”


 

 

1 Comentário

  1. Muito bom o artigo! Inteligente e objetivo.

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