jesus-e-os-pobres

Hoje, logo no início da manhã, participei de um momento formativo sobre o tema “Fé e Política” com o jornalista Osvaldo Luis, o qual propôs uma reflexão interessante sobre a dimensão social da evangelização, utilizando como referencial o Compêndio da Doutrina Social da Igreja.

Assim, compartilho abaixo os parágrafos 182, 183 e 184, da parte que fala sobre a “Destinação universal dos bens e opção preferencial pelos pobres”. Por um lado, trata-se de um tema polêmico – se utilizado em discussões imaturas e, por outro lado, trata-se de um documento eclesial muito rico, completo e profundo. Espero, em nome de Jesus, que eu consiga estudá-lo e citá-lo aqui com mais frequência. Boa leitura!


Destinação universal dos bens e opção preferencial pelos pobres

O princípio da destinação universal dos bens requer que se cuide com particular solicitude dos pobres, daqueles que se acham em posição de marginalidade e, em todo caso, das pessoas cujas condições de vida lhes impedem um crescimento adequado. A esse propósito deve ser reafirmada, em toda a sua força, a opção preferencial pelos pobres [1]. «Trata-se de uma opção, ou de uma forma especial de primado na prática da caridade cristã, testemunhada por toda a Tradição da Igreja. Ela concerne a vida de cada cristão, enquanto deve ser imitação da vida de Cristo; mas aplica-se igualmente às nossas responsabilidades sociais e, por isso, ao nosso viver e às decisões que temos de tomar, coerentemente, acerca da propriedade e do uso dos bens. Mais ainda: hoje, dada a dimensão mundial que a questão social assumiu, este amor preferencial, com as decisões que ele nos inspira, não pode deixar de abranger as imensas multidões de famintos, de mendigos, sem-teto, sem assistência médica e, sobretudo, sem esperança de um futuro melhor»[2].

A miséria humana é o sinal manifesto da condição de fragilidade do homem e da sua necessidade de salvação [3]. Dela teve compaixão Cristo Salvador, que se identificou com os Seus «irmãos mais pequeninos» (Mt 25, 40.45): «Jesus Cristo reconhecerá seus eleitos pelo que tiverem feito pelos pobres. Temos o sinal da presença de Cristo quando “os pobres são evangelizados” (Mt. 11, 5)».

Jesus diz « pobres sempre os tereis convosco, mas a Mim nem sempre Me tereis» (Mt 26,11; cf. Mc 14, 7; Jo 12,1-8) não para contrapor ao serviço dos pobres a atenção que se Lhe devota. O realismo cristão, enquanto por um lado aprecia os louváveis esforços que se fazem para vencer a pobreza, por outro põe em guarda contra posições ideológicas e messianismos que alimentam a ilusão de que se possa suprimir deste mundo de maneira total o problema da pobreza. Isto acontecerá somente no Seu retorno, quando Ele estará de novo conosco para sempre. Neste interregno*, os pobres ficam confiados a nós e sobre esta responsabilidade seremos julgados no fim (Cf. Mt 25, 31-46): «Nosso Senhor adverte-nos de que seremos separados dele se deixarmos de ir ao encontro das necessidades dos pobres e dos pequenos que são Seus irmãos»

O amor da Igreja pelos pobres inspira-se no Evangelho das bem-aventuranças, na pobreza de Jesus e na Sua atenção aos pobres. Tal amor refere-se à pobreza material e também às numerosas formas de pobreza cultural e religiosa [6]. A Igreja, «desde as suas origens, apesar das falhas de muitos de seus membros, não deixou nunca de trabalhar por aliviá-los, defendê-los e libertá-los. Ela o faz por meio de inúmeras obras de beneficência, que continuam a ser, sempre e por toda parte, indispensáveis»[390]. Inspirada no preceito evangélico: « Recebestes de graça, de graça dai » (Mt 10,8), a Igreja ensina a socorrer o próximo nas suas várias necessidades e difunde na comunidade humana inúmeras obras de misericórdia corporais e espirituais. «Dentre estes gestos de misericórdia, a esmola dada aos pobres é um dos principais testemunhos da caridade fraterna. É também uma prática de justiça que agrada a Deus»[8], ainda que a prática da caridade não se reduza à esmola, mas implique a atenção à dimensão social e política do problema da pobreza.

Sobre esta relação entre caridade e justiça o ensinamento da Igreja retorna constantemente: «Quando damos aos pobres as coisas indispensáveis, não praticamos com eles grande generosidade pessoal, mas lhes devolvemos o que é deles. Cumprimos um dever de justiça e não um ato de caridade»[9]. Os Padres Conciliares recomendam fortemente que se cumpra tal dever «para que não ofereçamos como dom de caridade aquilo que já é devido por justiça»[10]. O amor pelos os pobres é certamente «incompatível com o amor imoderado pelas riquezas ou o uso egoístico delas»[11] (Cf. Tg 5,1-6).

Fonte: (CPDS/Vaticano)

[1] Cf. João Paulo II, Discurso à Terceira Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano, Puebla (28 de Janeiro de 1979), I/ 8: L’Osservatore Romano, ed. em Português, 4 de Fevereiro de 1979, p. 10.
[2] João Paulo II, Carta encicl. Sollicitudo rei socialis, 42: AAS 80 (1988) 572-573; cf. Id., Carta encicl. Evangelium vitae, 32: AAS 87 (1995) 436-437; Id., Carta apost. Tertio millennio adveniente, 51: AAS 87 (1995) 36; Id., Carta apost. Novo millennio ineunte, 49-50: AAS 93 (2001) 302-303.
[3] Cf. Catecismo da Igreja Católica, 2448.
[4] Catecismo da Igreja Católica, 2443.
[5] Catecismo da Igreja Católica, 1033.
[6] Cf. Catecismo da Igreja Católica, 2444.
[7] Catecismo da Igreja Católica, 2448.
[8] Catecismo da Igreja Católica, 2447.
[9] S. Gregório Magno, Regula pastoralis, 3, 21: SC 382, 394 (PL 77, 87): «Nam cum quaelibet necessaria indigentibus ministramus, sua illis reddimus, non nostra largimur; iustitiae potius debitum soluimus, quam misericordiae opera implemus».
[10] Concílio Vaticano II, Decr. Apostolicam actuositatem, 8: AAS 58 (1966) 845; cf.Catecismo da Igreja Católica, 2446.
[11] Catecismo da Igreja Católica, 2445.

* in·ter·reg·no
(latim interregnum)
substantivo masculino
1. Intervalo entre dois reinados.
2. Intervalo durante o qual alguma coisa cessa de vigorar ou algum elevado cargo de ser preenchido.
3. Interrupção temporária.

 


 Nota: Para quem gosta de ler sobre questões sociais, relações de trabalho, economia, riqueza e pobreza, posicionamento político cristão e muito mais, fica a dica de leitura do Compêndio da Doutrina Social da Igreja, publicado por São João Paulo II. 

Outra dica, é que você leia outro artigo que publiquei “Qual o segredo para a nossa trasnformação financeira?” e lá, assistir a pregação “Sistema do mundo x Sistema de Deus” do Monsenhor Jonas Abib. 


Que Deus nos abençoe.

Cleber Rodrigues
Comunidade Canção Nova