A-realidade-da-emigracao-e-o-trabalho

A imigração pode ser antes um recurso que um obstáculo para o desenvolvimento.

No mundo atual, em que se agrava o desequilíbrio entre países ricos e países pobres e nos quais o progresso das comunicações reduz rapidamente as distâncias, crescem as migrações das pessoas em busca de melhores condições de vida, provenientes das zonas menos favorecidas da terra: a sua chegada nos países desenvolvidos é não raro percebido como uma ameaça para os elevados níveis de bem-estar alcançados graças a decênios de crescimento econômico. Os imigrados, todavia, na maioria dos casos, respondem a uma demanda de trabalho que, do contrário, ficaria insatisfeita, em setores e em territórios nos quais a mão-de-obra local é insuficiente ou não está disposta a fornecer o próprio contributo em trabalho.

As instituições dos países anfitriões devem vigiar cuidadosamente para que não se difunda a tentação de explorar a mão-de-obra estrangeira, privando-a dos direitos garantidos aos trabalhadores nacionais, que devem ser assegurados a todos sem discriminação.

A regulamentação dos fluxos migratórios segundo critérios de eqüidade e de equilíbrio1 é uma das condições indispensáveis para conseguir que as inserções sejam feitas com as garantias exigidas pela dignidade da pessoa humana. Os imigrantes devem ser acolhidos enquanto pessoas e ajudados, junto com as suas famílias, a integrar-se na vida social2. Em tal perspectiva deve ser respeitado e promovido o direito a ver reunida a família3. Ao mesmo tempo, na medida do possível, devem ser favorecidas todas as condições que consentem o aumento das possibilidades de trabalho nas próprias regiões de origem4.

Do Haiti para o Brasil

Creio que um bom exemplo concreto para esse tema é o fenômeno da migração dos haitianos para o Brasil, em busca de empregos para ajudar na reconstrução de suas vidas e seu país após a serie de terremotos ocorridos nos últimos ano. Dentre eles, muito chegaram a cidade de São Paulo e buscaram refugio em uma paróquia local. Na ocasião, o Arcebispo de São Paulo, cardeal Odilo Pedro Scherer, durante entrevista à repórter da TV Canção Nova, Elisa Ventura, comentou a situação dos haitianos que estão na capital paulista e continuam chegando à procura de emprego. O arcebispo acredita que os estrangeiros se decidem a vir para o Brasil a partir do “imaginário” de um país acolhedor, com muito espaço e boas oportunidades de trabalho. Dom Odilo também comentou o risco de aliciamento que vivem estes imigrantes e considera a questão como um grave problema, que precisa ser acompanhado.

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O trabalho deve ser honrado porque fonte de riqueza ou pelo menos condições de vida decorosas e, em geral, é instrumento eficaz contra a pobreza (cf. Pr 10, 4), mas não se deve ceder à tentação de idolatrá-lo, pois que nele não se pode encontrar o sentido último e definitivo da vida. O trabalho é essencial, mas é Deus — não o trabalho — a fonte da vida e o fim do homem. O princípio fundamental da Sabedoria, com efeito, é o temor do Senhor; a exigência da justiça, que daí deriva, precede a do lucro: “Vale mais o pouco com o temor do Senhor, que um grande tesouro com a inquietação” (Pr 15, 16). “Mais vale o pouco com justiça, do que grandes lucros com iniqüidade” (Pr 16,8).

Fonte: DS

Cf. João Paulo II, Mensagem para a celebração do Dia Mundial da Paz 2001, 13: AAS 93 (2001) 241; Pontifício Conselho Cor Unum – Pontifício Conselho para a Pastoral dos Migrantes e Itinerantes, Os refugiados, um desafio à solidariedade, 6: Libreria Editrice Vaticana, Cidade do Vaticano 1992, p. 8.
Cf. Catecismo da Igreja Católica, 2241.
Cf. Santa Sede, Carta dos direitos da família, art.12: Tipografia Poliglota Vaticana, Cidade do Vaticano 1983, 14; João Paulo II, Exort. apost. Familiaris consortio, 77: AAS 74 (1982) 175-178.
Cf. Concílio Vaticano II, Const. past. Gaudium et spes, 66: AAS 58 (1966) 1087-1088; João Paulo II, Mensagem para a celebração do Dia Mundial da Paz 1993, 3: AAS 85 (1993) 431-433.

 

Cleber Rodrigues
Comunidade Canção Nova