A consagração a Virgem Maria é uma verdadeira escola de espiritualidade, testada a aprovada na vida de muitos santos e santas há séculos.

A consagração, ou escravidão de amor, a Jesus por Maria, é uma verdadeira escola espiritual. Graças a Deus, a Igreja Católica tem inúmeras escolas espirituais. Algumas delas são mais conhecidas, como a escola de Santa Teresa d’Ávila e as “Sete Moradas”, a de Santa Teresinha do Menino Jesus e a sua “Pequena Via”, a de São João da Cruz e a sua “Noite Escura”. A escola de espiritualidade mariana é uma dessas escolas consagradas pelos santos, como São Bernardo de Claraval e São Boaventura. Esta escola espiritual, que já havia se desenvolvido durante séculos na Igreja, recebeu com São Luís Maria Grignion de Montfort, uma formulação mais acessível para todas as pessoas, desde as mais simples até aquelas mais letradas. A consagração é um método extraordinário para entrar nesta escola de santidade, sem dúvida, inspirada pelo Espírito Santo.

A consagração a Virgem Maria é uma verdadeira escola de espiritualidade, testada a aprovada na vida de muitos santos e santas na Igreja Católica há séculos.

Nossa Senhora e São João Paulo II, o Papa Todo de Maria

Os ensinamentos de São Luís Maria a respeito da consagração a Virgem Santíssima estão presentes em todos os seus principais escritos: “O Amor da Sabedoria Encarnada”, “O Segredo de Maria”, “Carta aos Amigos da Cruz”, especialmente no “Tratado da Verdadeira Devoção a Santíssima Virgem”. Montfort deu à tradicional escola mariana de espiritualidade uma formulação que respondia a três tendências na Igreja do o século XVII: a espiritualidade barroca, bastante tradicional; a exaltação da razão, por causa das influências filosóficas do Racionalismo e do Iluminismo1; e a espiritualidade popular, mais simples e devocional. Esta característica profundamente católica deste método fez do Tratado um verdadeiro tesouro de espiritualidade mariana para a Igreja. Durante esses últimos trezentos anos a consagração difundiu-se pelo mundo inteiro. Mas, foi no século XX que a consagração ganhou uma visibilidade sem precedentes em toda a Igreja, especialmente por causa do Papa João Paulo II, grande propagador desta devoção, que tinha como lema do seu pontificado a expressão em latim: “Totus Tuus”, que significa “Todo Teu”, ou “Todo de Maria”.

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Como compreender a consagração a Maria como escola de espiritualidade

No Tratado da Verdadeira Devoção, São Luís Maria explica-nos que a Virgem Maria é o primeiro degrau para a santificação. Para entender esta doutrina, recordemos que a Santíssima Trindade vem a nós por Jesus, Deus feito homem, que nos é dado por Maria. Em nosso caminho de volta para Deus, seguiremos o caminho inverso. Passando por Maria, vamos até Cristo, e de Cristo até Deus:

Tudo isto é tirado de São Bernardo e de São Boaventura. De acordo com suas palavras, temos três degraus a subir para chegar a Deus: o primeiro, mais próximo de nós e mais conforme a nossa capacidade, é Maria; o segundo é Jesus Cristo; e o terceiro é Deus Pai.2 Para ir a Jesus é preciso ir a Maria, pois ela é a medianeira de intercessão. Para chegar ao Pai eterno é preciso ir a Jesus, que é nosso medianeiro de redenção3.

Esta escola espiritual de São Luís Maria, que tem como finalidade nos levar a Jesus Cristo, poderia ser resumida nas práticas interiores da consagração: fazer todas as nossas ações “por Maria, com Maria, em Maria e para Maria, a fim de fazê-las mais perfeitamente por Jesus, com Jesus, em Jesus e para Jesus”4. No entanto, estas práticas não constituem graus sucessivos na nossa união com a Santíssima Virgem. Poderíamos dizer que fazer as ações “por Maria” é para os principiantes; “com Maria”, para os adiantados; e “em Maria”, para os perfeitos. Estas corresponderiam, aos três graus clássicos da vida interior: a via purgativa, a via iluminativa e a via unitiva. Esta comparação nos ajuda a compreender melhor a consagração como escola espiritual. Todavia, o modo como estas três fases desta devoção a Santíssima Virgem se desenvolvem em nossas vidas difere dos três graus clássicos da vida interior.

O fazer todas as coisas “por”, “com”, e “em” Maria diz respeito àquelas almas que já renunciaram ao pecado mortal e estão lutando contra os pecados veniais, desejosas de crescer na graça. Se este for o nosso caso, estas três coisas são inseparáveis. “São três aspectos, três fases, porém num só movimento de união. O ponto de partida é por, a continuação com, e a chegada em”5. E estas três fases se encontram em todos os atos que fazemos em união com Nosso Senhor. A princípio, esta é uma união mais ou menos fraca. Entretanto, esta união aumenta à medida que nossas almas fazem esforços para crescer na perfeição. Por fim, ganha toda a intensidade e toda a extensão possível quando praticamos constantemente a virtude.

Assista palestra do Padre Paulo Ricardo sobre “São José, o maior devoto da Virgem Santíssima:

Um verdadeiro consagrado faz tudo “por” Maria

Fazer tudo “por” Maria significa: obedecê-la em todas as coisas; conduzir-nos por seu espírito; proceder sob o impulso da graça que ela nos comunica; entregar todas as nossas ofertas por suas mãos; apoiar-nos em sua intercessão, recorrer a seu auxílio, para melhor conhecer e amar a Jesus. Fazer tudo “por” Maria também diz respeito a servir-nos dela como medianeira, para chegar a Jesus e nos unir a Ele.

Podemos dizer que fazer tudo por Maria Santíssima é fazer tudo por Jesus Cristo? A este respeito, Montfort ensina que:

…fazer todas as ações por Maria, quer dizer, em todas as coisas, obedecer à Santíssima Virgem, e em tudo conduzir-se por seu espírito, que é o santo Espírito de Deus […]. Disse que o espírito de Maria é o Espírito de Deus, porque ela jamais se conduziu por seu próprio espírito, e sempre pelo Espírito de Deus, e este de tal modo a dominou que acabou tornando-se seu próprio espírito6.

As Sagradas Escrituras atestam que “todos os que são conduzidos pelo Espírito de Deus são filhos de Deus” (Rm 8, 14). Do mesmo modo, se somos conduzidos pelo espírito de Maria, somos filhos de Maria e também filhos de Deus, pois o Espírito de Deus e o de Maria é o mesmo.

Enquanto consagrados, tudo devemos fazer por Jesus Cristo considerando-o mediador principal, necessário, universal. Ao mesmo tempo, tudo fazemos por Maria considerando-a medianeira subordinada e estabelecida pela livre vontade de Deus. Deste modo, Maria Santíssima não suprime Jesus Cristo, quando por ela vamos a Deus. Nossa Senhora nos conduz primeiro a Jesus, e por Ele a Deus.

Ser consagrado comporta fazer tudo “com” Maria

Fazer tudo “com” Maria é fazer o mesmo que uma criança. “Quando a criança ainda não sabe andar, nem rezar, a mãe a convida, anima-a com um gesto, com uma palavra. E a criança faz tudo com a mãe, que lhe dá o exemplo e ela ajuda em sua fraqueza e inexperiência”7. Do mesmo modo, fazer tudo com Maria é deixar que primeiro a Santíssima Virgem tome a iniciativa e, em seguida, agir com Ela, sob sua direção e influência. Fazer tudo com Maria significa segurar a sua mão, sem nos adiantar ou ficar para trás, e caminhar sempre de acordo com ela, perguntando-lhe de vez em quando: mostrai-nos, ó doce Mãe, como devemos proceder!

Fazer tudo com Maria é ficarmos calmos e resignados diante das contrariedades, dos insucessos, dos sofrimentos. Estas atitudes, aprendemos com Maria. Fazer tudo com Maria significa esforçar-nos para sorrir diante da palavra irônica ou má, que nos irrita, nos ofende. Fazer tudo com Maria é também perseverar até o fim, mesmo quando não temos êxito, apesar de o aborrecimento que por vezes sentimos. Em suma, fazer tudo com Maria é aceitar tudo como vindo das suas mãos: “as contrariedades, para nos formar; os sucessos, para nos animar. O olhar de Maria deve sempre ensinar-nos a sobrenaturalizar toda a nossa vida”8.

Assista ou ouça palestra do Padre Paulo Ricardo sobre “Consagração a Nossa Senhora, um caminho de santidade”:

Ser escravo de amor é tudo fazer “em” Maria

Fazer tudo em Maria é a realização e aplicação a Maria da palavra de Nosso Senhor: “Permanecei em mim e eu em vós” (Jo 15, 4). No entanto, para entender como fazer tudo em Maria, primeiramente precisamos compreender o que significa este “permanecer” em Maria: “Não se trata aqui de uma permanência real, substancial, mas de uma presença moral, de uma presença de pensamento, dum laço moral que põe duas pessoas em relações mútuas e que, por assim dizer, faz passar os afetos de uma a outra”9. Quando renunciamos às nossas opiniões e conceitos, às nossas intenções e vontades, para nos identificar com Maria, então operamos e permanecemos nela, do mesmo modo que ela opera e permanece em nós. Esta conformidade e esta união com Maria, nos transformam virtualmente nela.

Para compreender esta transformação em Maria, precisamos esclarecer o que significa o termo virtual: “Embora esteja de corpo e alma no Céu, Maria permanece na vida dos cristãos, por meio de uma presença virtual e de uma presença afetiva. A primeira consiste em uma presença ‘ativa’. O termo ‘virtual’ não tem nada que ver com computação gráfica. Em teologia, significa força, ação, atividade”10. Nesse sentido, a Virgem Maria está virtualmente em nós e, quando cooperamos com a sua ação, estamos objetivamente nela. Contudo, Maria está em nós por sua ação – virtualmente – mas nós não estamos nela, e nela não agimos, a não ser que dependamos de sua vontade e estivermos sob a influência de seus atos. À vista disso, desde o início da vida de união com Maria, fazemos tudo por, com, e em Maria. Com efeito, o menor esforço de nossa parte para corresponder à graça que a doce Virgem nos obtém, faz-nos agir nela, já que a preposição “em” exprime, sobretudo, a cooperação com a influência e a permanência de Maria em nossa ação.

Oh! Felizes, mil vezes felizes seremos se nos aplicarmos constantemente em agradar a Virgem Maria, em corresponder à sua graça. Pois, dessa forma, poderemos fixar nossa morada nela, como em uma torre inexpugnável, e tudo fazer por Ela e com Ela, para a maior glória de Deus! Assim, estreitaremos, cada vez mais, os laços sagrados que nos unem à Mãe de Jesus, até o dia sem ocaso, no qual, rompendo-se o véu, poderemos contemplá-la face a face na glória celeste (cf. 1 Cor 13, 12).

Viver com perfeição a consagração é tudo fazer “para” Maria

Enquanto consagrados, devemos fazer tudo para Maria. Esta expressão: “para Maria”, resume praticamente toda a fórmula “por, com e em Maria”, que tratamos anteriormente. No entanto, quando dizemos que fazemos tudo para Maria, isso não significa que ela é o fim último das nossas boas obras, mas, sim, o “fim próximo”11.

Jesus Cristo é o nosso fim último: “Nele foram criadas todas as coisas nos Céus e na Terra, as criaturas visíveis e as invisíveis. Tronos, dominações, principados, potestades: tudo foi criado por ele e para ele” (Col 1, 16), nos ensina São Paulo. A este respeito, São Bernardo associa a Jesus Cristo a sua Mãe Imaculada, quando diz que “é para ela – depois de Cristo – que tudo foi feito, e para ela que toda criatura existe”12.

Por causa de Jesus Cristo, podemos dizer que a Virgem Maria é, na religião, o fim mediato e subordinado de tudo. Pois, “é para ela que tudo se dirige, é em suas mãos que tudo se concentra, é por ela que tudo passa antes de subir a Jesus Cristo”13. Consequentemente, podemos fazer tudo para Maria, sem medo de errar. Enquanto consagrados a Virgem Santíssima, devemos fazer tudo para ela, pois este foi o caminho ensinado por Jesus Cristo, segundo o desígnio divino.

Assista ou ouça programa do Padre Paulo Ricardo sobre “A tragédia das almas retardatárias”:

A consagração a Jesus por Maria: escola de espiritualidade, de santificação

Assim, a consagração a Virgem Maria é um verdadeiro caminho de santificação, uma legítima escola espiritual, aprovada pelo Magistério da Igreja e comprovada na vida de muitos santos e santas. Todos somos chamados à santidade, mas não somos santos e a consagração é um auxílio em nosso processo de santificação pessoal. Por isso, não esperemos alcançar a santidade para nos consagrar. A consagração não é para os santos, mas para os pecadores, que querem alcançar a santidade. Se formos esperar ser santos, nunca vamos nos consagrar. A santidade é um caminho de configuração a Cristo, e a Virgem Maria é um auxílio a mais, que o próprio Senhor nos deu aos pés da Cruz (cf. Jo 19, 25-27). Se quisermos romper com o pecado e entrar na escola espiritual de São Luís Maria, ainda que sejamos os piores pecadores, podemos e devemos nos consagrar.

Como consagrados, somos chamados a ser valorosos soldados da Mãe de Deus e lutar, sofrer, trabalhar para Maria Santíssima. Dessa maneira, lutaremos, sofreremos, trabalharemos para Jesus Cristo. Para que nossas ações sejam dignas desta celeste Senhora, trabalhemos por Maria, com Maria, em Maria e para Maria. Pois, este é o caminho curto, fácil, perfeito e seguro para chegar a Jesus Cristo14. Esta é a extraordinária escola espiritual de São Luís Maria, que nos levará à santidade e a alcançar a maior glória de Deus, razão de nossos esforços e combates contra a nossa própria carne, o mundo e o demônio. São Luís Maria Grignion de Montfort, rogai por nós!

Natalino Ueda, escravo inútil de Jesus em Maria.

Links relacionados:

PADRE PAULO RICARDO. Em que consiste a infância espiritual de Santa Teresinha do Menino Jesus?

TODO DE MARIA. Mudar de vida com o Projeto Segunda Morada.

TODO DE MARIA. Purificar: inteligência, memória e vontade.

Referências:

1 O Racionalismo e o Iluminismo são duas escolas filosóficas presentes e muito fortes nos séculos XVII e XVIII.

2 Cf. S. Boaventura: Per Mariam ad Christum accedimos, et per Christum gratium Spiritus Sancti invenimus (Speculum B. V., lect. VI, § 2). – V. também Leão XIII, Encíclica “Octobri mense”, 22-9-1891.

3 SÃO LUÍS MARIA GRIGNION DE MONTFORT. Tratado da Verdadeira Devoção a Santíssima Virgem, 86.

4 Idem, 257.

5 PADRE JÚLIO MARIA DE LOMBAERDE. O Segredo da Verdadeira Devoção para com a Santíssima Virgem, p. 139.

6 SÃO LUÍS MARIA GRIGNION DE MONTFORT. Op. cit., 258.

7 PADRE JÚLIO MARIA DE LOMBAERDE. Op. cit., p. 140.

8 Idem, ibidem.

9 Idem, p. 141.

11 SÃO LUÍS MARIA GRIGNION DE MONTFORT. Op. cit., 265.

12 PADRE JÚLIO MARIA DE LOMBAERDE. Op. cit., p. 142.

13 Idem, ibidem.

14 SÃO LUÍS MARIA GRIGNION DE MONTFORT. Op. cit., 152.


Natalino Ueda é brasileiro, católico, formado em Filosofia e Teologia. Na consagração a Virgem Maria, segundo o método de São Luís Maria Grignion de Montfort, explicado no seu livro “Tratado da Verdadeira Devoção a Santíssima Virgem”, descobriu o caminho fácil, rápido, perfeito e seguro para chegar a Jesus Cristo. Desde então, ensina e escreve sobre esta devoção, o caminho “a Jesus por Maria”, que é hoje o seu maior apostolado.

1 comentário

  1. Claudia Maria de Souza

    Nunca tinha entendido porque fui levada a morar, onde me encontro, pensei que era Sociedade Marista, pude ver que tem um fundo politico, aí olhei o que tinha nesta comunidade para estar nela, a padroeira Nossa Senhora do Bom Conselho, a qual João Paulo II tinha veneração e onde me consagrei, não tive uma orientação adequada para fazer essa consagração, por isso a maneira de me expressar parece confusa.
    Nossa Senhora e minha Mãe e Senhora, sou como coisa e propriedade d´Ela.

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