Saiba qual é o significado do terceiro e último grau na consagração: sermos vítimas da Virgem Maria.

Vítima da Virgem Maria: este nome soa para nós quase como uma novidade, mas o seu significado é tão antigo quanto a própria Igreja. Nossa Senhora, unindo-se a Jesus Cristo intimamente, desde a anunciação da encarnação do Verbo de Deus até a Sua glorificação no altar da Cruz, tornou-se, deste modo, vítima com o Crucificado, e consequentemente corredentora.

Saiba qual é o significado do terceiro e último grau na consagração: sermos vítimas da Virgem Maria.

O encontro de Jesus Cristo com a Virgem Maria a caminho do Calvário

Em todos os tempos, as almas amantes da Virgem Imaculada uniram-se a ela e às suas dores, sofreram em união com ela, fizeram-se vítimas junto a ela. Em outras palavras, os verdadeiros devotos da Santíssima Virgem, para tornarem-se vítimas de Jesus, tornam-se primeiramente vítimas de Maria, sofrendo com Maria, em Maria, por Maria e para Maria.

Receba o conteúdo deste blog gratuitamente em seu e-mail.

A necessidade da vida de uma vida oferecida em sacrifício

Em nossos dias, uma inspiração especial do Espírito Santo parece estimular as almas generosas à vida de sacrifício. Podemos dizer que a vida de vítima, de entrega total, e o zelo pela salvação das almas, fatores principais das missões, são como dois polos que orientam e atraem as almas mais generosas. A consagração a Virgem Maria e o ardor apostólico de levar muitas almas para Jesus Cristo formam uma unidade admirável.

Se amamos Nossa Senhora, nada mais natural que trabalhar pela expansão do seu culto, que tem uma dignidade única na Igreja, que chamados de hiperdulia1. Nada mais lógico do que usar a nossa inteligência, as virtudes e potências de nossas almas, e o nosso tempo em tão bela devoção. Como o amor, depois de dar tudo, dá-se a si mesmo, as nossas almas também aspiram uma entrega total, sacrificar-se, imolar-se para a glória de Deus e de sua Mãe Santíssima.

Nesse ato de entrega, é necessário que o zelo seja fecundado pelo sacrifício, do mesmo modo que é preciso que o sulco aberto pela mão do apóstolo da Virgem Maria, no qual foi depositada a semente, seja regado, ou seja, que nele caia o orvalho da oração, e sobre ele repouse o sol do sacrifício:

Sim, é necessário! É devido a este espírito de imolação que em nossos dias, mais que outrora, o zelo das almas levanta esta ligação de corações ardentes e puros, que vão, longe da pátria e da família, no meio das nações infiéis, derramar seus suores e suas lágrimas, na esperança de um dia derramarem seu sangue! O zelo e o sangue unem-se, deste modo, para preparar o banho regenerador, em que se lavam as iniquidades do mundo2.

Assista ou ouça programa do Padre Paulo Ricardo com o tema “Amizade e sacrifício”:

O antídoto contra o mal do mundo moderno

Há ainda uma outra razão, não menos decisiva, para sermos vítimas. O espírito que caracteriza nosso tempo é o amor ao luxo, à riqueza, à sensualidade, ao bem-estar, o apego às comodidades e facilidades. Este é o espírito que penetra profundamente nas almas e a resseca, até a raiz, o espírito de penitência, de sacrifício, tão forte e constantemente recomendado por nosso Senhor e pregado posteriormente pelos seus discípulos.

O espírito do mundo moderno não repudia abertamente a virtude, mas enfraquece-lhe as suas forças e podemos até mesmo dizer que falsifica-lhe a noção exata. Hoje em dia, geralmente considera-se virtuosa a pessoa que: veste-se conforme os ditames da moda; mora em casas ou apartamentos luxuosos; anda em veículos caros, potentes, que dão status; quer tudo pronto, sem nenhum esforço. Ao, contrário, julga-se como antiquada a pessoa que se veste modestamente e não conforme os padrões mundanos; como pessoa de mal gosto a pessoa que mora num lugar simples; como um pobre coitado, ou sem estilo, quem tem um veículo modesto; como atrasada a mãe que cuida da casa, dos filhos, das coisas de família. Quantos de nós pensa, ou já pensou, dessa forma?

A virtude é primeiramente graça, da parte de Deus, mas também é esforço, da nossa parte. A virtude é a cruz, isto é, a luta, o sacrifício, a violência contra nós mesmos, para vencer as nossas tendências ao pecado e arrancar de nós as fascinações pelas coisas deste mundo.

Em nossos dias, preza-se ainda o amor a Deus. Entretanto, esta palavra é, em si mesma, tão abstrata que nada, ou muito pouco, significa na prática. Por vezes, esquecemos que amor é sacrifício, que amar é nos dedicar, dar-nos, sacrificar-nos, não somente pelas pessoas que amamos, mas também pelo próximo, pelas pessoas que Deus coloca em nossos caminhos. O amor de Deus é o fim que devemos ter sempre diante dos nossos olhos. Mas, para atingirmos este fim, há meios que devemos empregar, e estes meios são os sacrifícios.

Não levamos as almas a Deus inspirando-lhes somente atos de amor. A boca deve falar da abundância do coração (cf. Mt 12, 34), ou seja, esses atos de amor devem ser o fruto de um coração puro, que se sacrifica e se dá. “O ato de amor deve ser a respiração, a irradiação do espírito de vítima”3. Todavia, nas relações com pessoas piedosas, e até mesmo com diretores espirituais, encontramos erros grosseiros a esse respeito. Atualmente, recomenda-se que façamos numerosos atos de amor e desaconselha-se os atos de virtude, sob pretexto de que o amor tudo contém. Fazer isso significa deter-nos nas vias da perfeição e enganar a nós mesmos com uma santidade imaginária, constituída somente de palavras.

As almas que tem sede de santidade, devem dizer com nosso Senhor: “Haec oportuit facere, et illa non ommittere” – “Eis o que era preciso praticar em primeiro lugar, sem contudo deixar o restante” (cf. Mt 23, 23). Os atos de amor a Deus são necessários. No entanto, esses atos devem ser consequência necessária da prática de boas obras, isto é, de esforços pessoais de configuração a Cristo que confirmem as aspirações e as palavras de afeto. De outro modo, nossos atos de amor serão como que um corpo sem alma, ou seja, um “cadáver”.

O espírito moderno persegue e quer banir as “penosas” mortificações da carne, praticadas e aconselhadas pelos santos; quer acabar com estas “minuciosas” observâncias da modéstia, especialmente no modo de vestir; quer abolir as “incômodas” abstenções dos prazeres mundanos, de das alegrias que nos seduzem e nos atraem. O espírito do mundo quer acabar com tudo isso, que é considerado ultrapassado e não condiz mais com nosso tempo, para substituir pela “mortificação interior”, que no mais das vezes só existe de nome.

Mortificação interior, outrora significava mortificação do espírito, da vontade, da imaginação, do coração, da curiosidade. Hoje, a mortificação interior significa:

…mortificação de tal modo interior, e escondida, que não só é “invisível” aos homens, mas também ao próprio Deus. O que hoje se deseja é uma virtude sem combate, sem sacrifício, que não custe e não fadigue; uma virtude que permita gozar de todas as doçuras da vida, de todas as delícias dos banquetes da terra e de todas as delícias da mesa sagrada. Qual o remédio para este mal? Deus, em sua infinita misericórdia põe sempre o remédio ao lado do mal. Este remédio é a vida de vítima!4

Os três graus da vida de vítima de Nossa Senhora

Vítima é um ser vivo oferecido em sacrifício. Por sua vez, o sacrifício é a oferta de uma coisa ou de uma pessoa feita a Deus, com um certo aniquilamento, para reconhecer Seu soberano domínio, tendo em vista quatro fins principais: adoração, ação de graças, expiação e súplica. Oferecer-nos a Nossa Senhora como vítimas significa unir-nos a ela a fim de remir os pecados dos homens e implorar a misericórdia de Deus para os pobres pecadores. A Virgem Maria é o modelo perfeito desta vida de vítima. Unindo-nos a ela, como escravos, como apóstolos, e principalmente como vítimas, participamos desta vida.

Quando sofremos para honrar Deus e salvar as almas, ao mesmo tempo que para expiar os seus pecados, já merecemos o nome de vítimas. E quanto mais generosamente sofremos para a reparação dos pecados do mundo e para salvação das almas, tanto mais merecemos ser chamados de vítimas.

Nesta vida de vítima, há três graus. O primeiro consiste em acolher, todos os dias, os sofrimentos que Deus nos enviar, como vindos das mãos da Virgem Maria; e suportá-los com fé, com paciência e até mesmo com alegria, deixando a Nossa Senhora o cuidado da cruz de amanhã. Ser vítima, neste grau, significa pôr em prática a palavra de Nosso Senhor: “Tollat crucem suam quotidie…” – “tome cada dia a sua cruz…” (Lc 9, 23). Este primeiro grau, embora pareça simples, é mais sublime do que pensamos. Pois, as vítimas que o são sem saber, não são menos agradáveis a Deus. Podemos muito bem realizar o estado de vítimas somente oferecendo ao Senhor as cruzes de cada dia, vendo que Deus que as envia e que a Santíssima Virgem as põe sobre os nossos ombros.

O segundo grau na vida de vítima consiste em nos oferecer a Nossa Senhora, para sofrer na medida em que lhe agradar. Visar a cruz de hoje para abraçá-la é bem diferente de vislumbrar as cruzes possíveis, do futuro, para animar-nos e dispor-nos a carregar essas cruzes, se a Mãe de Deus assim quiser. Não se trata de pedir sofrimentos, mas de abandonar-nos à vontade da Virgem Maria, de entregar-nos inteiramente a ela, e de preparar-nos para o que a vontade dela nos reservar de cruciante para o futuro.

O terceiro grau na vida de vítima consiste em pedir sofrimentos a Mãe da Igreja. A diferença entre este grau e o anterior é fácil de notar. No grau precedente, entregamo-nos nas mãos da Virgem Maria e lhe dizemos: estamos prontos a aceitar todas as cruzes que nos impuserdes e queremos levá-las em união convosco – aceitamos os sofrimentos com generosidade, mas podemos muito bem não os desejar. Neste grau, vamos além, pois desejamos e pedimos os sofrimentos.

Santa Teresa dizia: “Ou sofrer, ou morrer!”.

São João da Cruz: “Sofrer e ser desprezado por vós!”.

Santa Madalena de Pazzi: “Sofrer, e não morrer para sofrer sempre”5.

No terceiro grau na vida de vítima, pedimos realmente a cruz. Nas vidas destes santos carmelitanos, e de tantos outros que poderíamos citar aqui, se encontram traços deste gênero de vítimas. Todavia, estes exemplos só devem ser imitados com discrição. Se nossas almas têm o desejo da cruz, pediremos sofrimentos proporcionados à nossa fraqueza, ou seja, que somos capazes de suportar.

Em nosso tempo, no qual a maioria das pessoas foge dos sofrimentos, podemos ser questionados: qual o sentido desta exaltação quase que doentia do sofrimento? Sofrer e não morrer, para sofrer mais. Isso é santidade? Há um valor absoluto no sofrimento? A este respeito, ressaltamos que o sofrimento vale como expiação, propiciação, sacrifício. O sofrimento vale na medida do amor e por causa do amor que nos leva a aceitá-lo em nossas vidas e, em certos casos, a procurá-lo, se for necessário. O sofrimento tem valor na medida que esse amor nos une a caridade de Jesus Cristo, o Salvador da humanidade. Não sofrer por sofrer não tem valor algum, mas sofrer em união com o sacrifício de Cristo tem valor salvífico.

Assista ou ouça programa do Padre Paulo Ricardo com o tema “As finalidades e os efeitos da Santa Missa”:

A prática da vida de vítima da Virgem Maria

A vida de vítima pode ser praticada por uma “simples promessa”, que nada mais é do que um firme propósito feito diante de Deus ou de Nossa Senhora. Como exemplo, isso acontece quando dizemos: meu Deus, eu quero ser melhor! No entanto, só devemos entrar neste caminho por um “voto” com o consentimento de um diretor espiritual bem esclarecido.

Seriamos efetivamente imprudentes se prometêssemos, sob pena de pecado, levar uma vida espiritual acima de nossas forças, ou à qual Deus não nos chamasse.

O primeiro e o segundo graus na vida de vítima podem ser vividos por simples promessa, sem juramento, e sem o consentimento de um diretor. Entretanto, estes dois graus só podem ser permitidos sob voto às almas realmente generosas, que deram provas inequívocas dessa generosidade especialmente ao seu diretor espiritual.

Uma promessa feita não somente diante de Deus, mas para Deus, com intenção de nos comprometer verdadeiramente, é o que chamamos voto. Se fazemos um voto, este sempre obriga-nos a cumpri-lo sob pena de pecado. Deixar de cumprir um voto pode ser pecado venial ou mortal, conforme a intenção de quem fez o voto, ou a gravidade da matéria.

Quanto ao terceiro grau na vida de vítima, é reservado àquelas almas distintas, que Nossa Senhora escolhe e aceita como suas auxiliares na vida de vítima.

Os sacrifícios das vítimas da Santíssima Virgem

Como prática interior, de almas vítimas de Maria, devemos ter incessantemente diante dos nossos olhos, os nossos pecados e os de nossos irmãos e experimentar por eles confusão e dor, multiplicar atos de arrependimento, e excitar em nós mesmos o desejo de os expiar.

Como prática exterior, devemos:

1.º Renunciar às satisfações do corpo, do espírito, e também da alma, que é o desapego afetivo;

2.º Privar-nos dessas satisfações de modo positivo, por uma determinação da vontade, se a isso não se opuser a discrição e outros motivos;

3.º Procurar sofrimento – mortificações exteriores, instrumentos de penitência – ou aceitá-los das mãos de Nossa Senhora; ou ainda os pedir.

Este pedido de sofrimentos, que diz respeito ao terceiro grau da vida de vítima, honra extraordinariamente a Virgem Imaculada. No entanto, ele requer atrativos e aptidões especiais, e deve estar sujeito à obediência do diretor espiritual. Neste grau, a mais alta prova é o sacrifício da vida: oferecer-nos como vítimas.

Por fim, ouçamos os conselhos de Padre Júlio Maria de Lombaerde a respeito de sermos vítimas da Virgem Maria:

Abram-se a um sacerdote esclarecido às almas chamadas por Deus a esta vida toda de sacrifício, e – a experiência tem desaconselhado quase sempre estes votos. Raras, raríssimas seriam as exceções – deixem-se guiar para os cumes deste Calvário. Ponham todas as almas, mesmo as que não tiverem coragem para encarar assim de frente a dor, como fundamento de sua vida mariana, o sofrimento generosamente aceito, alegremente suportado, desejado mesmo às vezes: pois é pelo sofrimento, pela luta e pelo esforço que se progride no caminho da virtude, segundo a regra tão admiravelmente formulada pelo autor da imitação: “In tantum proficies quantum tibi ipsi vim intuleris.” – “Progredirás na virtude na medida de teu esforço.”6

Natalino Ueda, escravo inútil de Jesus por Maria.

Links relacionados:

TODO DE MARIA. O que significa ser servo de Nossa Senhora?

TODO DE MARIA. O que significa ser filho de Nossa Senhora?

TODO DE MARIA. O que significa ser escravo de Maria?

TODO DE MARIA. O que significa sermos apóstolos de Maria?

Referências e nota:

1 A Deus, tributamos o culto de adoração, que chamamos de latria; aos mártires e aos santos de veneração, ou dulia; a Nossa Senhora, prestamos culto de hiperdulia (cf. II Concílio de Niceia, no ano de 787), que confirmou a legitimidade do culto às sagradas imagens e distinguiu entre o culto de latria, próprio de Deus, a quem adoramos, e o culto de dulia, próprio dos santos, das suas relíquias e imagens, a quem veneramos, o culto de hiperdulia, reservado especialmente a Santíssima Virgem Maria.

3 Idem, ibidem.

4 Idem, p. 65.

5 p. 67.

6 p. 68.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

HTML Snippets Powered By : XYZScripts.com