No cenáculo em Jerusalém, a presença orante da Virgem Maria no Pentecostes expressa o seu lugar especialíssimo na Igreja Católica.

Deus manifestou solenemente o mistério da salvação humana com a vinda do Espírito Santo, prometido por Jesus Cristo: “Mas recebereis o poder do Espírito Santo que virá sobre vós, para serdes minhas testemunhas em Jerusalém, por toda a Judeia e Samaria, e até os confins da terra” (At 1, 8). À espera do cumprimento dessa promessa, antes do dia de Pentecostes, os Apóstolos “perseveravam na oração em comum, junto com algumas mulheres – entre elas, Maria, mãe de Jesus – e com os irmãos dele” (At 1, 14).

No cenáculo em Jerusalém, a presença orante da Virgem Maria no Pentecostes expressa o seu lugar especialíssimo na Igreja Católica.

A Virgem Maria e os Apóstolos no Pentecostes

Maria Santíssima implorava, com as suas orações, o dom do Espírito, que já havia descido sobre ela na Anunciação (cf. Lc 1, 35). “Entre ela e o Espírito Santo há uma ligação objetiva e indestrutível, que é o próprio Jesus que juntos geraram”[1]. No cenáculo em Jerusalém, Nossa Senhora, que foi batizada pelo Espírito no mistério da Encarnação do Verbo, apresenta a Igreja para o batismo no Espírito, conforme a promessa de Jesus: “João batizou com água; vós, porém, dentro de poucos dias sereis batizados com o Espírito Santo” (At 1, 5).

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O silêncio da Virgem depois do Pentecostes

Nas cartas apostólicas, ficamos intrigados com a ausência de passagens bíblicas que mencionem a Mãe do Senhor. Depois da narrativa dos Atos dos Apóstolos (cf. At 1, 14), da Mãe de Jesus não encontramos nenhuma menção. Na carta aos Romanos, encontramos certa Maria, mas esta não é a Mãe do Senhor (cf. Rm 16, 6). A Virgem Maria desaparece no mais profundo silêncio. “Depois de Pentecostes, é como se ela tivesse entrado para a clausura”[2]. A vida de Maria “está escondida com Cristo em Deus” (Cl 3, 3).

O silêncio de Nossa Senhora inaugura um novo tempo na Igreja. “Maria inaugurou na Igreja aquela segunda alma, ou vocação, que é a alma escondida ou orante, ao lado da alma apostólica ou ativa”[3]. Depois do Pentecostes, os Apóstolos começam a pregar, depois partem em missão, fundando e dirigindo igrejas (cf. At 2, 14ss). A respeito de Maria nada se fala, pois ela permanece “em oração unida com as mulheres no Cenáculo, mostrando que na Igreja a atividade, mesmo pelo Reino, não é tudo, sendo indispensáveis as almas orantes que a sustentam. Maria é o protótipo desta Igreja orante”[4].

O carisma de Nossa Senhora na Igreja

O ícone da Ascensão de Jesus ao Céu fixa o momento da ida do Senhor à glória celeste, mas também nos mostra qual é o carisma e o lugar de Maria no tempo da Igreja. A Virgem está de pé, com os braços abertos em atitude orante, isolada do restante da cena pela figura dos dois anjos em vestes brancas. Ao redor dela, os Apóstolos estão com um pé ou uma mão levantados, em movimento, representando a Igreja ativa, que está em missão, que fala e age. “Maria está imóvel, debaixo de Jesus, no ponto exato de onde ele subiu, quase como para manter viva a sua memória e a sua espera”[5].

Para entender esta imagem e o carisma de Nossa Senhora, nos voltamos para a vocação de Teresinha do Menino Jesus. Tendo contato com a vocação de Paulo e com a sua descrição dos carismas, ela teria desejado ser apóstolo, sacerdote, mártir. Tais desejos a perturbavam constantemente, até que ela fez uma descoberta: “o corpo de Cristo tem um coração, que move todos os membros e sem o qual tudo pararia. E no auge de sua alegria exclamou: ‘No coração da Igreja, minha mãe, eu serei o amor e assim serei tudo!’ O que descobriu Teresa naquele dia? Descobriu a vocação de Maria. Ser, na Igreja, o coração que ama, o coração que ninguém vê, mas que move tudo”[6].

Maria, o coração da Igreja reunida em oração

A importância da Virgem de Pentecostes para a Igreja está justamente porque ela é o coração daquela oração comum e perseverante (cf. At 1, 14), que ultrapassa aquele pequeno grupo.

Jesus tinha vinculado o dom do Espírito Santo à oração: “Ora, se vós, que sois maus, sabeis dar coisas boas aos vossos filhos, quanto mais o Pai do céu saberá dar o Espírito Santo aos que lhe pedirem!” (Lc 11, 13). O Senhor vinculou a vinda do Espírito à nossa oração, mas também e principalmente à Sua oração: “E eu pedirei ao Pai, e ele vos dará um outro Defensor” (Jo 14, 16a).

Através desses textos da Sagrada Escritura, concluímos que a oração na Igreja está sempre ligada ao Espírito Santo, a Jesus Cristo e à comunidade reunida para rezar. “A oração dos apóstolos, reunidos no Cenáculo com Maria, é a primeira grande epiclese, é a inauguração da dimensão epiclética da Igreja, daquele ‘Vem, Espírito Santo’ que continuará a ressoar na Igreja por todos os séculos e que a liturgia irá antepor a todas as suas ações mais importantes”[7].

Links relacionados:

TODO DE MARIA. A obra do Espírito Santo em Maria.
TODO DE MARIA. A oração de Maria do Natal ao Pentecostes.
TODO DE MARIA. Maria e o Mistério da Ascensão do Senhor.

Referências:
________________________

[1]    RANIERO CANTALAMESSA. Maria, um espelho para a Igreja, Aparecida, 1992, p. 129.
[2]    Id., p. 130.
[3]    Id., p. 131.
[4]    Id., ibid.
[5]    Id., ibid.
[6]    Id., ibid.
[7]    Id., p. 137.

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