As ofensas cometidas contra nosso Senhor Jesus Cristo no Carnaval, as práticas de desagravo dos santos e um convite à reparação.

Nestes dias do Carnaval, para desagravar nosso Senhor Jesus Cristo ao menos um pouco pelos ultrajes que lhe são feitos, os santos aplicavam-se, de modo especial, ao recolhimento, à oração, à penitência, e multiplicavam os atos de amor, de adoração e de louvor para com seu Bem-Amado.

As ofensas cometidas contra nosso Senhor Jesus Cristo no Carnaval, as práticas de desagravo dos santos e um convite à reparação.

Le Christ aux outrages, de Philippe de Champaigne.

Procuremos imitar o exemplo dos santos, e se mais do que eles não pudermos fazer, visitemos muitas vezes o Santíssimo Sacramento e fiquemos certos de que Jesus Cristo nos recompensará com as graças mais importantes para nossa salvação. Como diz o Eclesiástico: “Fidem posside cum amico in paupertate illius, ut et in bonis illius laeteris ― Guarda fé ao teu amigo na sua pobreza, para que também te alegres com ele nas suas riquezas” (Eclo 22, 28).

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As ofensas cometidas contra nosso Senhor Jesus Cristo no Carnaval

Este amigo, a quem o Espírito Santo nos exorta a sermos fiéis no tempo da sua pobreza, podemos entender que é Jesus Cristo, que principalmente nestes dias de carnaval é deixado sozinho pelos homens ingratos e é como que reduzido à extrema penúria. Se um só pecado já desonra Deus, o injuria e o despreza, imaginemos quanto o divino Redentor deve afligir-Se neste tempo em que são cometidos milhares de pecados de toda a espécie, por toda a condição de pessoas, até mesmo por pessoas que Lhe estão consagradas. Jesus Cristo não é mais suscetível à dor, mas, se ainda pudesse sofrer, morreria nestes dias desgraçados, tantas vezes quantas são as ofensas que Lhe são feitas.

Na Liturgia pré-conciliar, no chamado domingo de Quinquagésima, que precedia as festas de Carnaval, não sem razão mística a Igreja propunha para a nossa meditação uma leitura do Evangelho na qual Jesus Cristo prediz a sua dolorosa Paixão. Com isso, a nossa boa Mãe deseja que nós, seus filhos, unamo-nos a ela na compaixão de seu divino Esposo, e O consolemos com os nossos obséquios; porquanto os pecadores, nestes dias, mais do que em outros tempos, Lhe renovam os ultrajes descritos no Evangelho.

Tradetur gentibus — Ele vai ser entregue aos gentios” (Lc 18, 32). Nestes tristes dias, os cristãos, e até entre eles alguns dos mais favorecidos, trairão, como Judas, o seu divino Mestre e O entregarão nas mãos do demônio. Eles trairão o Senhor, já não às ocultas, senão nas praças e vias públicas, fazendo ostentação de sua traição! Eles trairão Jesus, não por trinta moedas de prata, mas por coisas mais vis ainda: pela satisfação de uma paixão, por um torpe prazer, por um divertimento momentâneo!

Illudetur, flagellabitur et conspuetur — Hão de escarnecer dele, ultrajá-lo, desprezá-lo” (Lc 18, 32). Uma das mais baixas infâmias que Jesus Cristo sofreu em sua Paixão foi que os soldados Lhe vendaram os olhos e, como se Ele nada visse, O cobriram de escarros, e Lhe deram bofetadas, dizendo: Profetiza agora, Cristo, quem te bateu? (cf. Lc 22, 64).

Ah, meu Senhor! Quantas vezes esses mesmos ignominiosos tormentos não Vos são de novo infligidos nestes dias de extravagância diabólica? Pessoas que se cobrem o rosto com uma máscara, como se Deus assim não pudesse reconhecê-las, não têm pejo de vomitar em qualquer parte palavras obscenas, cantigas licenciosas, até blasfêmias execráveis contra Santo Nome de Deus! — “Et postquam flagellaverint, occident eum — Depois de o terem açoitado, o farão morrer” (Lc 18, 33). Sim, pois se, segundo a palavra do Apóstolo, cada pecado é uma renovação da crucifixão do Filho de Deus, ah! nestes dias Jesus será crucificado centenas e milhares de vezes[1].

É exatamente isto que Jesus Cristo quis dizer a Santa Gertrudes aparecendo-Lhe num domingo de Quinquagésima, todo coberto de sangue, com as carnes rasgadas, na atitude do “Ecce Homo (Jo 19, 5), e com dois algozes ao lado, que lhe apertavam a coroa de espinhos e O batiam sem piedade. Ah! Meu pobre Senhor!

A reparação dos santos às ofensas contra nosso Senhor Jesus Cristo

Na sequência do Evangelho de São Lucas, aproximando-se Jesus da cidade de Jericó, um cego estava sentado à beira da estrada e pedia esmolas. Ao saber que por ali passava Jesus de Nazaré, apesar das rudes repreensões, a fim de que se calasse, não cessava de gritar: “Jesus, Filho de Davi, tende piedade de mim” (Lc 18, 38). Por isso, o cego mereceu que, em recompensa de sua fé, o Senhor lhe restituísse a visão: “Fides tua te salvum fecit — A tua fé te salvou” (Lc 18, 42).

Nesses dias, se quisermos agradar o Senhor, eis aí o que também nós devemos fazer. Imitemos a fé daquele pobre cego e, neste tempo de libertinagem desenfreada, enquanto os outros só pensam em se divertir com prazeres mundanos, procuremos estar, mais do que de costume, diante do Santíssimo Sacramento. Não nos importemos com os escárnios do mundo, mas lembremo-nos do que dizia São Pedro Crisólogo: “Qui iocari voluerit cum diabolo, non poterit gaudere cum Christo — Quem quiser brincar com o demônio, não poderá gozar com Cristo”[2]. Quando nos acharmos na presença de Jesus Cristo no tabernáculo, peçamos-Lhe luz para detestarmos as ofensas que O magoam tão profundamente. Peçamos ao Senhor não somente para nós mesmos, senão também para tantos irmãos nossos desviados: “Domine, ut videam — Senhor, fazei-me ver” (Lc 18, 41).

A fim de desagravar o Senhor um pouco de tantos ultrajes, os santos aplicavam-se no tempo de Carnaval, de modo especial, ao recolhimento, à penitência, à oração, e multiplicavam os atos de amor, de adoração e de louvor ao seu Bem-Amado:

No tempo de carnaval, Santa Maria Madalena de Pazzi passava as noites inteiras diante do Santíssimo Sacramento, oferecendo a Deus o sangue de Jesus Cristo pelos pobres pecadores. O Bem-aventurado Henrique Suso guardava um jejum rigoroso a fim de expiar as intemperanças cometidas. São Carlos Borromeu castigava o seu corpo com disciplinas e penitências extraordinárias. São Filipe Néri convocava o povo para visitar com ele os santuários e exercícios de devoção. O mesmo praticava São Francisco de Sales, que, não contente com a vida mais recolhida que então levava, pregava ainda na igreja diante de um auditório numerosíssimo. Tendo conhecimento que algumas pessoas por ele dirigidas se relaxavam um pouco nos dias de carnaval, repreendia-as com brandura e exortava-as à comunhão frequente[3].

A reparação das ofensas contra nosso Senhor Jesus Cristo

Numa palavra, todos os santos, porque amaram Jesus Cristo, esforçaram-se o mais que podiam para santificar o tempo do Carnaval. Sendo assim, se amamos também o amabilíssimo Redentor, imitemos os santos. Se não podemos fazer mais, procuremos ao menos ficar, mais do que em outros tempos, na presença do Santíssimo Sacramento, ou bem recolhidos em nossas casas, aos pés de Jesus Cristo crucificado, para chorar as muitas ofensas que Lhe são feitas nesses dias.

Ut et in bonis illius laeteris― para que te alegres com ele nas suas riquezas” (Eclo 22, 28). O meio para adquirirmos um tesouro imenso de méritos e obtermos do céu as graças mais notáveis é sermos fiéis a Jesus Cristo em sua pobreza e fazer-Lhe companhia neste tempo em que é mais abandonado pelo mundo, como nos ensina o livro do Eclesiástico: “Fidem posside cum amico in paupertate illius, ut et in bonis illius laeteris ― Guarda fé ao teu amigo na sua pobreza, para que também te alegres com ele nas suas riquezas” (Eclo 22, 28). Oh, como Jesus, nosso amigo, agradece e retribui as orações e os obséquios que nestes dias de Carnaval Lhe são oferecidos pelas suas almas prediletas!

Conta-se que, certa vez, Santa Gertrudes viu num êxtase o divino Redentor que ordenava ao Apóstolo São João que escrevesse com letras de ouro os atos de virtude feitos por ela no Carnaval, a fim de recompensá-la com graças especialíssimas. Foi exatamente neste mesmo tempo, enquanto Santa Catarina de Sena estava orando e chorando os pecados que se cometiam na quinta-feira gorda – comemorada na última quinta-feira antes do início da Quaresma – que o Senhor declarou-a sua esposa, em recompensa dos obséquios praticados pela Santa no tempo de tantas ofensas.

Oração de Santo Afonso Maria de Ligório para o tempo do Carnaval

Amabilíssimo Jesus, Vós que sobre a cruz perdoastes aos que Vos crucificaram, e desculpastes o seu horrendo pecado perante o vosso Pai, tende piedade de tantos infelizes que, seduzidos pelo Espírito da mentira, e com o riso nos lábios, vão neste tempo de falso prazer e de dissipação escandalosa, correndo para a sua perdição. Ah! pelos merecimentos de vosso divino sangue, não os abandoneis, assim como mereceriam. Reservai-lhes um dia de misericórdia, em que cheguem a reconhecer o mal que fazem e a converter-se. — Protegei-me sempre com a vossa poderosa mão, a fim de que não me deixe seduzir no meio de tantos escândalos e não venha a ofender-Vos novamente. Fazei que eu me aplique tanto mais aos exercícios de devoção, quanto estes são mais esquecidos pelos iludidos filhos do mundo.

Amabilíssimo Jesus, não é tanto para receber os vossos favores como para fazer coisa agradável ao vosso divino Coração, que quero nestes dias unir-me às almas que Vos amam, para Vos desagravar da ingratidão dos homens para convosco, ingratidão essa que foi também a minha, cada vez que pequei. Em compensação de cada ofensa que recebeis, quero oferecer-Vos todos os atos de virtude, todas as boas obras, que fizeram ou ainda farão todos os justos, que fez Maria Santíssima, que fizestes Vós mesmo quando estáveis nesta terra. Entendo renovar esta minha intenção todas as vezes que nestes dias disser: † Meu Jesus, misericórdia. ― Ó grande Mãe de Deus e minha Mãe Maria, apresentai vós este humilde ato de desagravo a vosso divino Filho, e por amor de seu sacratíssimo Coração obtende para a Igreja sacerdotes zelosos, que convertam grande número de pecadores. † Doce Coração de Maria, sede minha salvação[4].

Links relacionados:

CANÇÃO NOVA FORMAÇÃO. Saiba quais são os tipos de jejum.
PADRE PAULO RICARDO. A lei da abstinência.
PADRE PAULO RICARDO. Como viver bem o tempo da Quaresma?
TODO DE MARIA. A reparação ao Coração Imaculado de Maria.
TODO DE MARIA. Penitências e sacrifícios dos pastorinhos.

Referências:


[1]  SANTO AFONSO MARIA DE LIGÓRIO. Meditações para todos os dias e festas do ano: Tomo I, p. 280.
[2]  Idem, p. 281.
[3]  Idem, p. 273.
[4]  Idem, p. 274.218-282.


Natalino Ueda é brasileiro, católico, formado em Filosofia e Teologia. Na consagração a Virgem Maria, segundo o método de São Luís Maria Grignion de Montfort, explicado no seu livro “Tratado da Verdadeira Devoção a Santíssima Virgem”, descobriu o caminho fácil, rápido, perfeito e seguro para chegar a Jesus Cristo. Desde então, ensina e escreve sobre esta devoção, o caminho “a Jesus por Maria”, que é hoje o seu maior apostolado.

2 Comentários

  1. Texto lindo e iluminado pelo Senhor! Deus o abençoe!

  2. EDIVALDO BARBOSA DE PONTES

    Belíssimo texto que o Natalino Ueda nos apresenta.
    Podia fazer menção também a Beata Maria Pierina de Micheli, apóstola da Sagrada Face; elevada às honras dos altares em 30 de maio de 2010, na Basílica de Santa Maria Maior em Roma, com a solene Beatificação querida pelo Santo Padre Bento XVI.

    “ILLUMINA, DOMINE VULTUM TUUM SUPER NOS”
    “MANE NOBISCUM, DOMINE”

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