Conheça a consagração a Jesus por Maria, a espiritualidade mariana que marcou a vida, o pontificado, o pensamento do Papa João Paulo II.

Falar da consagração, ou escravidão de amor, a Jesus por Maria, espiritualidade mariana do Papa São João Paulo II, torna-se ainda mais significativo nestes dias, há pouco mais de dois anos de sua canonização, que aconteceu em 27 de Abril de 2014. Esta foi a devoção a Virgem Maria que elevou o polonês Karol Wojtyla à tão alto grau de santidade que os fiéis o queriam proclamar santo logo depois da sua morte, dizendo: “santo súbito”.

Papa São João Paulo II diante da imagem do Imaculado Coração de Maria

Papa São João Paulo II diante da imagem de Nossa Senhora de Fátima

Karol Wojtyła nasceu no dia 18 de Maio de 1920, em Wadowice, na Polônia. Em Outubro de 1942, entrou no seminário de Cracóvia clandestinamente, por causa da invasão comunista em seu país, e a 1º de Novembro de 1946, foi ordenado sacerdote. Em 4 de Julho de 1958, o Papa Pio XII nomeou-o Bispo auxiliar de Cracóvia. Tendo em vista sua espiritualidade marcadamente mariana, Karol escolheu como lema episcopal a conhecida expressão Totus tuus, de São Luís Maria Grignion de Montfort, grande apóstolo da Virgem Maria. A ordenação episcopal de Wojtyla foi em 28 de Setembro do mesmo ano. No dia 13 de Janeiro de 1964, foi eleito Arcebispo de Cracóvia. Em 26 de Junho de 1967, foi criado Cardeal por Paulo VI. Na tarde de 16 de Outubro de 1978, depois de oito escrutínios, foi eleito Papa.

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O livro que marcou a espiritualidade do Papa João Paulo II

A espiritualidade mariana do grande São João Paulo II o levou a uma vida inteiramente dedicada a Deus, principalmente os seus mais de 25 anos de pontificado, um dos mais longos da história da Igreja. Olhando para a vida de João Paulo II, este santo dos nossos dias, podemos aprender a espiritualidade que o fez de um dos Papas mais extraordinários de todos os tempos e que o elevou rapidamente à glória dos altares.

Ainda seminarista, um livro clássico de espiritualidade mariana o ajudou a tirar as dúvidas que tinha em relação a devoção a Nossa Senhora e a centralidade de Jesus Cristo na vida e na espiritualidade católica.

A obra que marcou profundamente a vida e consequentemente a espiritualidade de Karol Wojtyla foi o “Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem”, de São Luís Maria Grignion de Montfort. Falando às Famílias Monfortinas, o Papa João Paulo II disse que o Tratado é um “texto clássico da espiritualidade mariana”1, que teve singular importância em seu pensamento e em sua vida. Segundo o Santo Padre, o Tratado é uma “obra de eficiência extraordinária para a difusão da ‘verdadeira devoção’ à Virgem Santíssima”2. São João Paulo II experimentou e testemunhou essa eficácia do Tratado em sua própria vida:

Eu próprio, nos anos da minha juventude, tirei grandes benefícios da leitura deste livro, no qual “encontrei a resposta às minhas perplexidades” devidas ao receio que o culto a Maria, “dilatando-se excessivamente, acabasse por comprometer a supremacia do culto devido a Cristo”3. Sob a orientação sábia de São Luís Maria compreendi que, quando se vive o mistério de Maria em Cristo, esse risco não subsiste. O pensamento mariológico do Santo, de fato, “está radicado no Mistério trinitário e na verdade da Encarnação do Verbo de Deus”4.

A mais perfeita das devoções a Virgem Maria

São Luís Maria ensina que a perfeição cristã consiste em sermos conformes, unidos e consagrados a Jesus Cristo. Por isso, a mais perfeita de todas as devoções é, sem dúvida, a que mais nos conforma, une e consagra perfeitamente ao Senhor. Como foi Nossa Senhora a criatura que mais conformou-se ao seu divino Filho, “entre todas as devoções, a que consagra e conforma mais uma alma a nosso Senhor é a devoção a Maria, sua Mãe santa, e que quanto mais uma alma estiver consagrada a Maria, tanto mais estará consagrada a Jesus Cristo”5.

Dirigindo-se em oração a Jesus Cristo, o grande Montfort exprime como é maravilhosa esta união entre o Filho de Deus e a sua Mãe santíssima:

Ela é de tal forma transformada em Ti pela graça, que não vive mais, não existe mais: és unicamente Tu, meu Jesus, que vives e reinas nela… Ah! se conhecêssemos a glória e o amor que tu recebes nesta maravilhosa criatura… Ela está tão intimamente unida… De fato, ela ama-Te mais ardentemente e glorifica-Te mais perfeitamente do que todas as outras criaturas juntas”6.

Em Jesus Cristo, Filho unigênito de Deus, somos realmente filhos do Pai e, ao mesmo tempo, filhos da Santíssima Virgem. Com a Encarnação do Verbo eterno de Deus, de certa forma, toda a humanidade renasce. Por isso, podemos aplicar a Mãe de Jesus, de maneira mais verdadeira que São Paulo as aplica a si mesmo, estas palavras: “Meus filhos, por quem sinto outra vez dores de parto, até que Cristo se forme entre vós” (Gl 4, 19). Dessa forma, Nossa Senhora dá à luz a nós todos os dias, enquanto Jesus Cristo não estiver formado em nós, na plenitude da sua idade7. Esta doutrina paulina encontra a sua expressão mais bela na oração do senhor Grignion: “Oh! Espírito Santo, concede-me uma grande devoção e uma grande inclinação para Maria, um apoio sólido sobre o seu seio materno e um recurso assíduo à sua misericórdia, para que, nela, tu possas formar Jesus dentro de mim”8.

Assista ou ouça palestra do Padre Paulo Ricardo sobre “O Papa de Maria”:

A escravidão de amor como forma de viver a liberdade dos filhos de Deus

Na espiritualidade monfortina, o dinamismo da caridade expressa-se especialmente através do sinal da consagração total, ou escravidão do amor, a Jesus Cristo, a exemplo e com a ajuda materna de Nossa Senhora. “Trata-se da comunhão plena na kenosis (despojamento) de Cristo; comunhão vivida com Maria, intimamente presente nos mistérios da vida do Filho”9. Segundo São Luís Maria:

...não há nada entre os cristãos que faça pertencer de maneira mais absoluta a Jesus Cristo e à sua Santa Mãe como a escravidão da vontade, segundo o exemplo do próprio Jesus Cristo, que assumiu a condição de escravo por amor a nós formam servi accipiens (cf. Fl 2, 7), e da Santa Virgem, que se considerou serva e escrava do Senhor (cf. Lc 1, 38.). O apóstolo honra-se do título de servus Christi. Várias vezes, na Sagrada Escritura, os cristãos são chamados servi Christi10.

Jesus Cristo, o Filho de Deus, veio ao mundo em obediência ao Pai na Encarnação (cf. Hb 10, 7), humilhou-se fazendo-se obediente até a morte, e morte de Cruz (cf. Fl 2, 7-8). Em comunhão com o Filho, “Maria correspondeu à vontade de Deus com o dom total de si, corpo e alma, para sempre, desde a Anunciação até a Cruz, e da Cruz até a Assunção”11.

Esta consagração, ou escravidão de amor, a Jesus Cristo pelas mãos da Virgem Maria deve ser interpretada à luz do admirável intercâmbio entre Deus e a humanidade, no mistério do Verbo encarnado. Este é uma verdadeira permuta de amor entre Deus e nós, na reciprocidade da doação total de si. O espírito desta devoção mariana é uma resposta ao amor de Deus, que consiste em “tornar a alma interiormente dependente e escrava da Santíssima Virgem e de Jesus por meio dela”12.

Ao contrário do que podemos pensar, este “vínculo de caridade” com Jesus por Maria, esta “escravidão de amor” torna-nos plenamente livres, faz-nos viver a verdadeira liberdade dos filhos de Deus13.

Consagrar-nos significa entregar-nos totalmente a Jesus Cristo, respondendo ao amor com que Ele nos amou por primeiro. Qualquer pessoa que viver plenamente esta consagração, esta escravidão de amor, pode dizer como São Paulo: “Já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim” (Gl 2, 20).

São João Paulo II: um Papa consagrado a Virgem Maria

Portanto, se queremos trilhar o caminho seguro de santificação, façamos do Tratado o nosso livro de cabeceira, como fez São João Paulo II: “Li e reli muitas vezes, e com grande proveito espiritual, este precioso livrinho ascético de capa azul”14. Este precioso clássico de espiritualidade mariana ajudou o Karol Wojtyla a entender que a devoção a Nossa Senhora está em plena sintonia com a centralidade de Jesus Cristo, que faz parte de toda a espiritualidade genuinamente católica:

A Virgem pertence ao plano da salvação por vontade do Pai, como Mãe do Verbo encarnado, por Ela concebido por obra do Espírito Santo. Toda a intervenção de Maria na obra da regeneração dos fiéis não se põe em competição com Cristo, mas d’Ele deriva e está ao seu serviço. A ação que Maria realiza no plano da salvação é sempre cristocêntrica, isto é, faz diretamente referência a uma mediação que acontece em Cristo15.

Através do Tratado, João Paulo II entendeu estas verdades de fé e abraçou a escravidão de amor a Virgem Maria: “Compreendi, então, que não podia excluir da minha vida a Mãe do Senhor, sem desatender a vontade de Deus-Trindade, que quis ‘iniciar e realizar’ os grandes mistérios da história da salvação com a colaboração responsável e fiel da humilde Serva de Nazaré”16. A exemplo de João Paulo II, este homem extraordinário, abracemos também a escravidão de amor a Santíssima Virgem Maria, para que, como ele, sejamos fiéis até o fim a Jesus Cristo. São João Paulo II, rogai por nós!

Natalino Ueda, escravo inútil de Jesus por Maria.

Links relacionados:

PADRE PAULO RICARDO. A história do bem-aventurado Papa João Paulo II.

TODO DE MARIA. A vida do Papa João Paulo II.

TODO DE MARIA. João Paulo II: um papa consagrado a Maria.

TODO DE MARIA. João XXIII, João Paulo II e a devoção a Maria.

Referências:

1 PAPA JOÃO PAULO II. Carta às Famílias Monfortinas, 1.

2 Idem, ibidem.

3 PAPA JOÃO PAULO II. Dom e mistério, p. 38.

4 Idem, Carta às Famílias Monfortinas, 1.

5 SÃO LUÍS MARIA GRIGNION DE MONTFORT. Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, 120.

6 Idem, 63.

7 Cf. Idem, 33.

8 SÃO LUÍS MARIA GRIGNION DE MONTFORT. O Segredo de Maria, 67.

9 PAPA JOÃO PAULO II, Carta às Famílias Monfortinas, 6.

10 SÃO LUÍS MARIA GRIGNION DE MONTFORT. Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, 72.

11 PAPA JOÃO PAULO II, Carta às Famílias Monfortinas, 6.

12 SÃO LUÍS MARIA GRIGNION DE MONTFORT. O Segredo de Maria, 44.

13 Cf. SÃO LUÍS MARIA GRIGNION DE MONTFORT. Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, 169.

15 Idem, ibidem.

16 Idem, ibidem.

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