Saiba como retiramos do sentido literal da Bíblia um alimento espiritual para nossas almas.

Nesta aula do curso “Ensina-nos a orar”, Padre Paulo Ricardo nos ensina que há dois sentidos: o primeiro é o literal e o segundo, é o espiritual. Nós já vimos que as Sagradas Escrituras têm um papel importante na nossa vida espiritual. Mas, para que os textos da Bíblia sejam para nós alimento espiritual, é necessário saber como, a partir do sentido literal, chegar ao sentido espiritual.

Saiba como retiramos do sentido literal da Bíblia um alimento espiritual para nossas almas.

Travessia do Mar Vermelho, de Cosimo Rosselli

Uma das grandes pedras de tropeço para nós é o modo como interpretamos a Bíblia. Como é que nós podemos tirar o suco espiritual de um texto que, muitas vezes, não nos diz muita coisa? Pois bem, a primeira coisa é que nós temos que entender que a Bíblia tem duas “camadas”, ou seja, dois sentidos: o sentido literal e o sentido espiritual.

As duas “camadas” das Sagradas Escrituras

Por que a Igreja Católica admite que existam essas duas “camadas” na Bíblia? Por uma razão muito simples: ao contrário de nós, seres humanos, Deus pode falar através de acontecimentos históricos. Nós podemos falar através de palavras, através de um texto, através de gestos, mas não podemos falar através de acontecimentos históricos. Por quê? Porque não temos o controle da história, não é verdade? Agora, Deus é diferente de nós. Ele é o Senhor da história! Então, Ele pode falar conosco através de acontecimentos.

O povo de Israel saiu do Egito, libertou-se da escravidão do Faraó, passou pelo Mar Vermelho e então começou uma nova vida (cf. Ex 12, 35ss). Pois bem, através desse acontecimento histórico, a Igreja vê que Deus já estava antecipadamente nos indicando a escravidão que nós sofremos de Satanás. Naquele fato, vemos toda a luta, a conversão e o processo que passamos para, nas águas do Batismo, representadas pelo Mar Vermelho, livrar-nos da escravidão de Satanás. E então, a partir daí, começar a vida espiritual, ou seja, uma luta contra as paixões, que é exatamente o tempo do povo de Deus no deserto. Vejam como os acontecimentos históricos podem nos falar. Então, é isto que a Igreja admite quando diz que existe um sentido espiritual.

O sentido literal é muito claro: o que é que as Sagradas Escrituras nos ensinam quando elas dizem que Israel foi libertada por Deus do Egito? Bom, a nação de Israel foi libertada, é um fato histórico, é um acontecimento. Às vezes, quando as pessoas veem essas leituras espirituais, dizem: “ah, então quer dizer que aquilo lá é lorota, é historinha, não aconteceu de verdade”. Não. Aconteceu de verdade. Israel foi libertada do Egito. Mas, existe outro sentido, o sentido espiritual. E esse sentido espiritual pode ser dividido em três tipos de interpretação, que nós chamamos de alegoria, moral e anagogia.

Assista ou ouça aula do Padre Paulo Ricardo sobre “Os sentidos das Escrituras”:

A interpretação alegórica das Escrituras Sagradas

O que é que é isso? A alegoria se dá quando um acontecimento histórico, além daquele sentido literal da Bíblia, que é o sentido básico, nos fala daquilo que nós cremos. Então, a saída do povo de Israel do Egito nos fala da nossa fé no sacramento do Batismo. A esse respeito, podemos perguntar assim: “Mas, padre, como é que eu sei que esse negócio não é uma loucura da minha cabeça, uma invenção minha?” Bom, o sentido espiritual, para que seja uma interpretação válida, precisa estar expresso, em algum lugar, na Revelação divina, de forma literal. O fato de que nós somos escravos de Satanás e existe um processo de conversão, que existe uma libertação pelo Batismo e que depois vamos lutar no deserto da vida contra as nossas paixões, está na Revelação divina, nas Sagradas Escrituras e na Tradição da Igreja. Por isso, não temos dúvida. Então, podemos tomar essas verdades de nossa fé e enxergar sinais delas no acontecimento histórico. Então, não será um delírio da nossa cabeça. Mas, uma interpretação possível.

A interpretação moral das Sagradas Escrituras

Além da interpretação alegórica da Bíblia, temos também a interpretação moral. Por exemplo: Jesus curou o cego Bartimeu (cf. Mc 10, 46-52). Quer dizer que Jesus não curou um cego? Ele curou, aconteceu historicamente. Mas, podemos ver na cura daquela cegueira, a cura da nossa cegueira espiritual, através da fé. É algo moral, nós temos que crer que Jesus quer a nossa cura e praticar essa virtude. É isso que nos tira da cegueira espiritual.

Assista ou ouça programa do Padre Paulo Ricardo sobre “As Sagradas Escrituras e a nossa vida espiritual”:

A interpretação anagógica ou escatológica da Bíblia

Por fim, a terceira forma de retirar das Escrituras um sentido espiritual é a anagogia. Através dela, vemos que os acontecimentos históricos aqui deste mundo também falam das coisas do Céu. Então, por exemplo, ainda sobre aquela realidade do povo de Israel, que luta durante 40 anos no deserto, ele finalmente entra na Terra Prometida (cf. Js 3, 1ss). A este fato podemos acrescentar o sentido anagógico e interpretar que a entrada do povo de Israel na Terra Prometida, pelo Rio Jordão, é a nossa entrada na Jerusalém Celeste, no Céu, que é o que todos nós esperamos.

O sentido espiritual da Bíblia no caminho da fé

Assim, nós somos convidados pela Igreja a mergulhar mais fundo nas Sagradas Escrituras, a ir além do sentido literal e encontrar no sentido espiritual um verdadeiro alimento para as nossas almas. Dessa forma, acontecimentos históricos que antes pareciam não dizer nada para nós, passam a nos ajudar em nossa caminhada na fé da Igreja Católica, em nosso processo de conversão, sempre com os olhos fixos na meta, que é chegar à Terra Prometida, à Jerusalém Celeste!

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TODO DE MARIA. Padre Paulo Ricardo ensina-nos a orar.

2 Comentários

  1. Gostaria de uma luz acerca da interpretação da passagem do jovem rico. Li a respeito e as pessoas têm interpretações diferentes acerca deste assunto.

    Quando Jesus diz a ele para vender tudo e depois segui-lo, isto deve ser interpretado literalmente? Devemos nós fazer como o jovem, vender nossos bens e doá-los? Por outro lado, Jesus não teria pedido para ele vender os bens porque era precisamente estes que o separavam Dele? No nosso caso poderia ser abrir mão de outra coisa?

    Ainda, quando duas respostas são diversas e oriundas de padres, os quais são representantes de Deus, a qual se deve dar crédito?

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